JULHO NACIONAL: O INCENDIÁRIO – RJ MENDES

“O Incendiário” é o primeiro livro do jovem autor Rodrigo Mendes e acaba de ser relançado de forma independente pelo autor, eu tive a oportunidade de conferir a obra pela primeira vez em 2015 quando fuçando pela internet acabei encontrando o trabalho do autor e agora em 2018 pude ler a reedição e confirmar aquilo que já pensava sobre a obra em 2015.

Se o público interessado por literatura no geral é pequeno no Brasil, imagine então o volume do público interessado em literatura nacional contemporânea independente? Os desafios são gigantescos, por isso, uma das coisas que mais gosto sobre a internet e as redes sociais é a oportunidade e a facilidade de conhecer coisas novas e trazer para o blog, há muitos autores incríveis espalhados pelo país esperando apenas uma oportunidade para serem descobertos e você pode começar ao valorizar um trabalho independente, apoiar o autor nacional, comprar uma obra ou simplesmente divulgando o trabalho em suas redes sociais. Cá estou eu fazendo a minha parte e apresentando para vocês “O Incendiário” de R.J. Mendes.

Daniel subitamente descobre que pode controlar o fogo, mas Focus, o antigo dono desse crucial elemento, vem buscar o dom que jura ser seu. Com seus amigos, Daniel desvenda o passado e reencontra pessoas, além de descobrir que o fogo queima, machuca, corrói e destrói tudo a sua frente.

Ao ler essa sinopse você pode chegar a pensar que já leu pelo menos duzentas estórias de adolescentes que descobriram ter algum poder e precisam lidar com esse poder enquanto se livram de algum algoz e salvam o dia, deixando tudo em perfeito estado e terminando com um: e viveram felizes até o volume 2? Porém, não se engane, “O Incendiário” é bem mais que isso, pois o poder de Daniel não é algo que se queira ter, as consequências de ter esse poder e usá-lo também não são invejáveis e sua jornada para tentar sanar os seus problemas, talvez não seja tão gratificante quanto se imagina.

Na trama, Daniel descobre que pode controlar o elemento do fogo da pior forma possível, enquanto sofre um ataque massivo de Focus, o antigo dono do elemento que está sendo caçado e que foi expurgado de uma parte do dom por ter infringido todas as regras que uma pessoa super poderosa deveria seguir. Após esse ataque com consequências para a vida e o psicológico do personagem, ele precisa embarcar em uma enrascada para buscar respostas a respeito da origem de seu dom que está intrinsecamente ligada às motivações de Focus e ao passado de sua família e o desaparecimento de seu pai.

Motivado por recentes descobertas, Daniel decide procurar o seu pai, a única pessoa capaz de esclarecer o que está acontecendo com a sua vida e o motivo pelo qual ele está sendo perseguido por um louco homicida que controla o fogo e possui ajudantes no mínimo assustadores. Durante essa busca, Daniel conta com seu melhor amigo Henrique, sua namorada Marina e seus novos amigos Renan e Anshai, cada um com uma história de vida não menos sofrida do que a do protagonista.

Henrique é o melhor amigo de Daniel e é portador de leucemia, ele recusa-se a se tratar da doença e é apoiado pelo amigo que já foi vencido ao tentar lhe convencer do contrário. Sem dúvida alguma ele é um dos personagens que eu mais gostei justamente por me proporcionar sentimentos conflitantes durante a leitura, o personagem nos faz rir e ao mesmo tempo sentir uma sensação de culpa por ter rido. O alívio cômico do personagem é de um humor amargo de alguém que brica com sua condição fatal por ter decidido que se for para sofrer, prefere sofrer o mínimo possível. É sem dúvida um  personagem bem complexo que pode gerar discussões internas no leitor sobre a morte, a condição humana, a dor e o egoísmo.

Marina, a namorada do nosso protagonista, está bem longe de ser uma donzela água com açúcar, ela é forte e muitas das vezes mais forte e inteligente que o próprio Daniel, que vira e mexe precisa de uns empurrões dela para pegar no tranco ou se livrar de uma enrascada. Em uma de suas falas no livro, a personagem questiona o namorado se por um acaso ela tem cara de quem tem medo de homem, se referindo ao vilão Focus. É girlpower demais! Creio que se não fosse por Marina, Daniel teria tido o seu coração corrompido pelo elemento em tempo menor do que Focus.

Já que falei sobre o vilão, Focus possui um passado bem pesado e nos mostra que todos nós podemos ser vilões em potencial dependendo das coias as quais somos submetidos. É claro que ele deixa tudo de ruim que lhe ocorre ser maior do que as outras coisas e tem seu coração corrompido pelo mal, (o que vamos combinar que não é nada aconselhável para pessoas que controlam o fogo) mas a motivação inicial para o seu espírito ser corrompido chega a ser compreensível. Eu particularmente adoro vilões que me fazem questionar se as ações deles estão realmente tão incorretas assim.

Outro personagem que gostei muito foi o Anshai que também atende pela alcunha de Origami. Anshai tem uma estória bem bonita e a motivação de sua rivalidade com a princesa Vinhay me surpreendeu bastante, aqui temos uma reflexão interessante sobre o que é o amor de verdade e o quanto a deturpação desse sentimento pode ser algo perigoso. Anshai é o personagem com cenas mais bonitas e digamos “mágicas” do livro, pois ele pode dar vida aos origamis que cria.

Rodrigo consegue nos prender nas desventuras de Daniel, mesmo que de forma cruel, com muitas cenas de ação, personagens interessantes e com várias camadas, lágrimas, humor agridoce e uma dose de terror (aqueles Flams, ajudantes de Focus, espíritos de almas renegadas que foram mortas de maneira hostil, são horrendos e stalkers!) e uma aventura com um final diferente do que o leitor espera e digamos…explosivo.

É claro que você precisa vestir a mochila da fantasia para conseguir embarcar na estória, uma vez que estamos falando aqui de jovens controlando elementos, realidade e origamis de papel, porém quando você está devidamente embarcado nessa aventura, posso te garantir que não vai se arrepender de ter comprado a passagem. Ainda há aqui alguns problemas envolvendo a revisão, contudo, é notável a melhora na diagramação tendo em vista a edição anterior e não posso de forma alguma deixar de ressaltar a melhora no projeto gráfico da obra que conta com uma ilustração belíssima de Nicholas Geraldo de Castilho Silva.

“O Incendiário” é um livro que mostra que vale a pena incentivar o trabalho nacional e independente e é a prova de que temos diversos autores e artistas talentosos no nosso país apenas esperando para serem descobertos. Descubra “O Incendiário” você também, adquirindo o livro no site oficial do autor.

Quantos cafés “O Incendiário” merece?

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