JULHO NACIONAL: ENTERRE SEUS MORTOS – ANA PAULA MAIA

“Enterre Seus Mortos” é o sétimo e mais novo livro da autora e roteirista Ana Paula Maia, publicado esse ano pela editora Companhia das Letras, e meu primeiro contato com a escrita da autora que já teve obras traduzidas na Sérvia, Alemanha, Argentina, França, Itália, Estados Unidos e Espanha.

Olha para o alto e gira a cabeça de um lado para outro na tentativa de encontrar algum vestígio, algum traço mínimo de verdade. Porém, não há nada no céu: nem fúria, nem anjos, nem santos. É um céu vazio, completamente sem cor e som. Inerte.

Narrada em terceira pessoa com algumas intromissões de perspectiva dos personagens principais, a trama nos apresenta o cotidiano de Edgar Wilson e Tomás.

Edgar Wilson é descrito como um homem simples que executa tarefas, ele é um homem introspectivo, acostumado ao isolamento, sisudo, que prefere manter suas opiniões guardadas para si, o personagem quase beira à frieza, atributos estes mais que necessários para alguém que trabalha no órgão responsável por recolher animais mortos em estradas e levá-los para um depósito onde são triturados  num grande moedor. Tomás, seu colega de profissão, é um ex-padre excomungado pela igreja católica que distribui a extrema unção aos moribundos vítimas de acidentes fatais que inevitavelmente cruzam seus caminhos pelas estradas. Assim, Edgar e Tomás perfazem uma dupla perfeita, onde um “cuida” da carcaça, enquanto o outro se encarrega do espírito.

Essa rotina pacata e desagradável é alterada quando Edgar encontra um corpo de uma mulher enforcada dentro da mata sendo devorado por abutres, ele sabe que o corpo não vai durar muito tempo ali caso não seja removido, porém, seu trabalho e o trabalho de todos os removedores de animais é apenas remover os animais e entrar em contato com a polícia avisando quando há um cadáver humano na estrada.

Em meio ao dilema do que fazer com o corpo da mulher, o removedor descobre que a polícia não possui recursos para recolher o corpo, o único rabecão da cidade está quebrado e aguardando uma peça de reposição há um bom tempo, então decide que não deixará o corpo à mercê dos abutres e reboca o cadáver clandestinamente até o depósito, onde o guarda num velho freezer, à espera de um policial que, quando chega, se mostra incapaz de resolver a situação. Como se não bastasse ter de explicar um corpo do freezer da empresa que trabalha, dias depois o freezer ganha um outro cadáver.

Com o passar dos dias, a falta de retorno dos órgãos competentes e a infeliz quebra do freezer que acondiciona os dois corpos, Edgar e Tomás se veem obrigados a tomar um atitude para tentar devolver as coisas ao curso natural, e nessa viagem acabam descobrindo o destino cruel dos seus semelhantes. Essa jornada forçada acaba por nos mostrar uma outra face do personagem principal, onde ele se importa e deixa de ser apenas uma peça mecânica que faz mover a máquina moedora de sua empresa.

Preciso me mudar. A poluição da pedreira tá acabando comigo. Vou drenar os pulmões de novo.

A estória é ambientada em uma cidadezinha pequena, pacata e insalubre, onde uma pedreira gera muita poluição e de tempos em tempos sofre uma detonação que espalha detritos dos quais as pessoas precisam se abrigar, ou podem acabar sendo atingidas, feridas ou mortas. O clima de desesperança é predominante em toda a trama, desde o trabalho dos coletores que são responsáveis apenas por recolher os animais, mesmo que haja uma pessoa agonizando na cena, passando pela indiferença das pessoas quanto aos corpos de seus entes queridos e terminando com a forma que os corpos não reclamados são tratados pelos órgãos competentes. Nesse clima pesado é totalmente compreensível as características do personagem principal que trabalha como uma máquina, evitando se envolver, até quando não consegue mais se omitir e precisa tomar um atitude.

Com pouco menos de 140 páginas, Ana Paula Maia constrói uma realidade fria, cinza, densa, desesperadora, desesperançosa e que infelizmente faz com que o leitor reflita sobre problemas reais que nos acometem atualmente.

“Enterre Seus Mortos” atesta o fracasso do ser humano em diversos aspectos, desde a própria humanidade, exemplificada pelo descaso com que as pessoas tratam os falecidos, passando pelos órgãos públicos responsáveis, que possuem equipamentos sucateados, são acometidos pela super-lotação, pelo descaso das autoridades que facilita o trabalho de pessoas de má índole que passam a fazer ainda mais mal ao sistema ao se aproveitarem da situação para tirar proveito e lucro próprio, o que não é uma coisa muito bonita de se ver em um órgão responsável por administrar os corpos de pessoas falecidas, além de também abordar a religião como mais um fracasso, onde pessoas se utilizam dos artifícios que possuem para ludibriar e usar a palavra da forma que querem para atingir os objetivos que lhes convém.

Essa obra curta e poderosa de escrita crua da autora Ana Paula Maia vai ter fazer refletir sobre o nosso modelo de sociedade e aspectos do ser humano que de forma alguma são extrapolados aqui, como acontece em histórias de ficção científica, e é isso o que mais assusta. Já estamos vendo há um bom tempo pessoas se aproveitando da fé dos outros para obter ganhos pessoais, para serem elevados ao patamar de um deus que deveria ser soberano, pessoas lutando entre si para provar que o seu deus é melhor do que o outro deus, pessoas jogando fora o “amai-vos uns aos outros” e escolhendo seguir apenas a parte das escrituras que aponta o dedo e julga, descartando também o fato de que quando se aponta um dedo para alguém, há mais três dedos apontando para si mesmo.

Também não surpreende ver recursos públicos sucateados, a falta de investimento na área de saúde e a consequente super-lotação nas filas de hospitais que (quando se tem hospitais) continua matando pessoas e sabemos bem que há todo um mercado que lucra com a morte e pessoas irresponsáveis que trabalham nesses setores, vide o caso que ocorreu anos atrás onde foi disseminado pela internet um vídeo da autópsia de um cantor famoso. São todos esses aspectos juntos e mais diversos detalhes que tornam “Enterre Seus Mortos” uma obra importantíssima e instantaneamente um clássico por ser um retrato fiel, um fruto de seu tempo, um tempo de desesperança, incertezas, frieza, de céu cinza e inerte.

Conheça mais sobre a autora acessando a página oficial no Facebook, caso tenha gostado da obra, você pode adquiri-la no link do blog na loja da Amazon ou em qualquer loja de sua preferência ;D

Quantos cafés “Enterre Seus Mortos” merece?

9 comentários sobre “JULHO NACIONAL: ENTERRE SEUS MORTOS – ANA PAULA MAIA

  1. Rodrigo disse:

    Li de uma vez só e fui capturado pela narrativa da autora, mesmo me sentindo extremamente desconfortável com várias situações durante a leitura. Mais uma indicação ótima do Luke!

    Curtido por 1 pessoa

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