JULHO NACIONAL: NOVENA PARA PECAR EM PAZ

“Novena para pecar em paz” é um livro de contos escrito inteiramente por mulheres e com personagens mulheres no centro das narrativas, os corpos de cada uma das personagens habita tem papel central em cada um dos contos que foram escritos por Beatriz Leal Craveiro, Lisa Alves, Lívia Milanez, Maria Amélia Elói, Mariana Carpanezzi, Patrícia Colmenero, Paulliny Gualberto Tort e Rosângela Vieira Rocha, com apresentação de Natalia Borges Polesso e organizados por Cinthia Kriemler, que também possui um conto na antologia.

A ideia de criar uma antologia de prosa escrita inteiramente por mulheres partiu da Editora Penalux, Cinthia Kriemler foi convidada para organizar os textos de autoras do Distrito Federal como parte do projeto da editora de publicar um livro escrito só por mulheres em cada um dos estados do Brasil com o tema: A problematização do universo feminino. Inicialmente Cinthia convidou duas autoras conhecidas, Maria Amélia Elói e Rosângela Vieira Rocha, então, esses convites foram se desdobrando até alcançar nove mulheres que juntas construíram a obra da capa ao conteúdo e que conteúdo!

Eu tive o prazer de conhecer a obra por indicação da amiga Ana, do blog Ponto Para Ler, que também embarcou nessa ideia de fazer um mês temático dedicado inteiramente ao conteúdo nacional. A Ana mora em Brasília, assim como as autoras que escreveram a antologia e como você poderá constatar nesse post, faz indicações incríveis! Sem mais delongas, vamos direto aos contos que compõem a antologia.

Em “Luz Negra”, Beatriz Leal Craveiro inicia os trabalhos da antologia com um chute na porta. O conto narra a estória de Paula, uma mulher que desconfia do parceiro Rodrigo que sempre lhe atribuí o papel de louca em meio a constantes discussões. O leitor conhece Paula pela visão de uma outra mulher, Roberta, um amiga de Rodrigo, que de início acredita na descrição que o homem faz da parceira, mas aos poucos, na medida que se permite ter mais sororidade, vai descobrindo que as palavras dele não refletem o real.

Gaslighting é uma forma de manipulação psicológica com que o gaslighter faz o outro acreditar que está ficando louco.

Frases como “isso é coisa da sua cabeça”, “você é muito exagerada!”, entre outras, são bordões comuns entre gaslighters. O gaslighting é praticado, na maioria das vezes, contra mulheres, sendo usado como mais uma forma de machismo.

Eu conheço bem de perto – infelizmente – esse tipo de abuso, mas não tinha noção de que existe até mesmo um termo para este, eu terminei a leitura do conto de boca aberta por um motivo que pode vir a ser dois: saber que existe um termo específico para esse tipo de abuso e refletir que, se há um termo para este, é sinal de que é um abuso que acontece com mais frequência do que eu imaginava, o que me gera um asco gigante! É triste saber que há pessoas que aprisionam outras em relações tóxicas e, como se não fosse o suficiente, precisam ver o outro com o emocional em frangalhos para suprir necessidades de ego. Se você está passando por algo parecido, pesquise um pouco mais acerca do Gaslighting e tente se afastar dessa relação, pois sua sanidade mental é muito mais preciosa do que qualquer carícia, carinho ou sentimento mendigado de alguém que claramente não liga para o seu bem.

Em “Destino”, Cinthia Kriemler nos conta a estória de uma mulher que quando criança perdeu sua irmã mais nova em um incêndio dentro de sua própria casa, incidente que fez sua mãe pegar seis anos de cadeia e não voltar mais de lá, incidente que fez com que ela fosse entregue à um orfanato e saísse outra pessoa de lá e construísse sua vida nos moldes do que fora a vida de sua mãe, sem pensar muito sobre o que estava acontecendo, pra onde a vida a estava levando, apenas sendo arrastada pelo destino.

Eu perguntei o que tinha acontecido com Júlia. E a mulher destruída sentada na cadeira ao meu lado respondeu. Sem omitir detalhe. Era assim entre nós. Nenhuma mentira piedosa. Nenhum faz-de-conta. Ela assumiu a culpa pelas velas que tinham ficado em cima da geladeira.

A estória criada por Cinthia é enervante de se acompanhar, o inevitável, o destino aqui exemplificado por ela é aterrador, pois a personagem não pensa muito no que poderá vir a ser, ela simplesmente segue e todos os seus caminhos se cruzam e se assemelham com os caminhos traçados pela própria mãe, com uma diferença que ocorre na conclusão da estória. Aqui fica clara a importância da mulher na criação, a importância de ter alguém para te apoiar, te mostrar o certo, o errado e te direcionar para caminhos que te levem a algum lugar bom; sem esse direcionamento é muito fácil se perder em caminhos tortuosos que te levarão à um destino que você acredita ser o seu por não ter sido presenteada com perspectivas de uma coisa melhor, por não ter tido alguém para te mostrar que você tinha forças para mudar sua condição.

Em “Estranha Fruta”, Lisa Alves narra a estória de duas mulheres casadas que tem sua história de amor promissora interrompida por um crime de ódio e preconceito que leva a vida de uma delas que partiu espancada até a morte e depois foi pendurada em um galho de uma Copaíba com um bilhete que, para a parceira, deixava evidente quem foi o responsável por tão terrível crime.

Não éramos um encaixe perfeito. Éramos uma combinação acertada; o nove depois do um, e o cofre abria. Unidas atraíamos a sorte – a sorte, a mesma sorte, a mesma sorte que nos escapou naquele dia.

É até redundante dizer que o conto é forte, pois até aqui só tivemos contos assim, porém esse é ainda mais revoltante, pois a autora enriquece o problema com pequenos abusos que homossexuais e mulheres sofrem diariamente, como a falta de crença de que duas pessoas do mesmo sexo podem se amar e construir uma vida juntas, como a submissão da mulher pregada em púlpitos  e também o quão longe uma pessoa pode ir em nome de sua fé deturpada se valendo do que acredita como uma espécie de permissão divina para expurgar o mal com as próprias palavras, atos e mãos, enquanto ainda há quem fique da janela apenas observando e colaborando com o julgamento errado, injusto e nada humano.

Por falar em preconceito, “Um Caule de Mogno” de Lívia Milanez vem logo à seguir também falando sobre o tema. Aqui a personagem é uma mulher trans que vive com sua avó, a única pessoa da família que lhe acolheu e a respeita como ela é, e uma vez por ano, durante o Natal, tem a “oportunidade” de conviver com toda a família, então, ela se encarrega de cuidar da ceia, preparando o alimento do qual todos consumirão com total carinho, dedicação, atenção e amor, amor este que não é retribuído quando ela interrompe a ceia para contar sobre a sua decisão.

A reação da família da personagem é uma exemplificação do jargão “Disappointed but not Surprised”, e a reação da personagem é bem semelhante a reação do leitor ao encarar todos os julgamentos, olhares estranhos e desfeitas daqueles que tiveram a barriga cheia de uma refeição preparada com amor e não aprenderam nada com o fato de terem recebido amor de uma pessoa tão mal tratada, ignorada e suprimida pelo ódio. Contudo, o conto termina com uma conclusão feliz, onde a personagem segue sua escolha para ser amada plenamente por quem realmente importa, ela mesma.

“As Duas Irmãs” de Maria Amélia Elói é um retrato do que infelizmente tornou-se uma realidade triste e comum. Leonora Oliveira é uma mulher forte que após ser abandonada pelo parceiro teve que criar duas filhas sozinha, mas não pense que Leonora se envergou às dificuldades da criação, sua família tem um extenso histórico de abandonos e suas ancestrais souberam muito bem viver sem uma figura masculina, criando as demais mulheres da família da melhor forma que podiam.

Esse negócio de vítima não é comigo. Minha única doença é ser mulher, mas não quero cura. A chefa da família sou eu mesma, mulher de nascença e de costume, dona de casa, dona das filhas, dona de mim mesma.

Sendo assim, Leonora criou suas filhas Renata e Ritinha, até o ponto em que sentiu a necessidade de ter um companheiro, é então que surge Jurandir, um homem gentil, atencioso e que parece um sonho tendo em vista tudo que a mulher enfrentou, mas nem tudo que reluz é ouro e a inevitabilidade volta a aparecer nessa antologia, porém com requintes de crueldade aqui, indícios de falta de humanidade.

“Manual de Mergulho” de Mariana Carpanezzi é poesia pura, um momento de respiro na antologia, onde uma personagem relembra momentos de um relacionamento e revela sentir saudades; enquanto reflete, o ambiente é intercalado entre experiências ocorridas em Brasília e na Islândia , os ambientes se misturam com sensações e com a linha de pensamento da personagem, mas o tem central é sempre a saudade e também o medo de esquecer e seguir em frente sem sentimentos que foram tão bons.

Em “Santa Felicidade” de Patricia Colmenero conhecemos a estória de uma mulher comum, mãe de família que cuida da casa e de todos os residentes e se esforça para não ser engolida pela rotina, cultivando manias de limpeza e superstições, encarando a ida ao mercado e a escolha de produtos como desafios pessoais e desafios aos outros, tentando ser vista, tentando expressar alguma coisa, tentando mudar sua realidade e criar coragem para sair de seu ciclo rotineiro.

“Mirna” de Paulliny Gualberto Tort é a personagem mais diferente dentre as mulheres da antologia. Mirna é infeliz com sua vida em todos os aspectos, é infeliz em casa, é infeliz em seu relacionamento extra-conjugal, é infeliz com sua rotina e parece não ter forças suficientes para mudar e transformar toda a sua insatisfação em coragem para mudar, ela é praticamente apenas uma peça no mundo, se movendo conforme ordenam, dançando uma dança onde faz o papel de conduzida e não de condutora, se questionando se os remédios de tarja preta que gritam aos seus ouvidos exclamações de loucura realmente são necessários e têm razão no que gritam, ou se apenas estão tentando deixá-la louca ao suprimir os anseios que esconde no peito.

“O bolso do vestido azul” de Rosângela Vieira Rocha é o conto que encerra a antologia contando a estória de uma mãe que perdeu a filha recentemente em um acidente automobilístico. A mãe tem a ingrata missão de ir ao apartamento da filha escolher a roupa com a qual ela será sepultada e vista pela última vez, como se a dor de perder e sepultar uma filha não fosse o suficiente, ela acaba descobrindo uma caderneta no bolso de um vestido azul contendo um segredo terrível que a filha guardou para si.

“Novena Para Pecar em Paz” é uma obra que propõe uma conversa com o leitor sobre assuntos como relacionamentos abusivos, gaslighting, prostituição, inevitabilidade, homossexualidade, crimes de ódio, submissão feminina, transsexualidade, auto-aceitação, preconceito, maternidade, abuso sexual, pedofilia, saudosismo, amor e rotina pelo ponto de vista de mulheres incríveis. Além de ser uma conversa sobre temas diversos e pertinentes, a obra também é um exercício gigante de empatia que deveria ser seguido por muita gente, a importância dessa obra é gigante e me sinto até chateado de não ter conhecido a obra antes e de não ter visto ela sendo tão divulgada por aí, mas aqui estou eu, fazendo a minha parte da forma que posso, entendendo que essas lutas devem ser encaradas e vencidas diariamente por muitas mulheres que não deveriam ter que encarar algumas delas se a nossa sociedade não fosse tão machista.

Caso tenha se interessado pela obra, você pode adquirir na loja virtual da Editora Penalux.

Quantos cafés “Novena Para Pecar em Paz” merece?

4 comentários sobre “JULHO NACIONAL: NOVENA PARA PECAR EM PAZ

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