LIVRO: CLARICE – A ÚLTIMA ARAUJO (PAULO SOUZA)

“Clarice, A Última Araujo” é o primeiro livro físico solo publicado pelo escritor, produtor cultural e blogueiro literário Paulo Souza. A obra foi lançada esse mês pela Editora Penalux e o autor conseguiu a façanha de esgotar os livros no lançamento, um feito que diz muito sobre a escrita, o trabalho e a dedicação que o autor tem com a literatura.

O autor possui uma coletânea de contos chamada “Ponto para Ler – Contos” que já foi resenhada por aqui e foi um dos autores selecionados por André Vianco para integrar a coletânea de contos de terror “Antologia Sombria”, onde participou com o conto “Carrancas”.

Clarice cresceu sabendo que a existência de sua família é o motivo pelo qual as terras e vidas dos moradores de Novo Oriente são tão secas. Conta-se que uma ancestral de Clarice deitou-se com um querubim e essa relação proibida teve como fruto as mulheres da família Araújo e a maldição da seca em Novo Oriente, lugar onde todas nasceriam e morreriam sem ver sequer uma gota de chuva. O sangue celestial misturado ao mortal conferiu traços de beleza e formosidade ímpares às mulheres daquela família, a formosidade das Araújo era tamanha que nenhum homem ousaria sequer tocá-las, há quem diga que as tentativas que ocorreram levaram os atrevidos à loucura.

A Chuva aqui é retratada como uma entidade, meu conhecimento sobre a chuva tem muita relação com a minha criação religiosa, onde se acredita que chuva é sinônimo de graça, do contentamento de Deus com as ações do homem, uma espécie de recompensa divina por bom comportamento. Após um querubim deitar-se com uma mortal, a cidade de Novo Oriente é privada da graça, da recompensa divina e se vê esquecida, desprovida de vida, sufocada em poeira, aqui, a viúva Das Dores com toda a certeza afirmaria: Tudo por culpa daquelas Araújo.

Clarice é a última descendente da linhagem do querubim, a última gota do veneno advindo do sangue celestial misturado ao mortal e, ao contrário do que aconteceu com suas antepassadas, Clarice tem algo novo reservado para si, algo que nem a Chuva e nem a viúva Das Dores podia contar. A chegada da cafetina Joana Critério à Novo Oriente abala a vida de todos, em um golpe de sorte após diversas negativas, Clarice decide ir com Joana para a capital cearense, deixando a Chuva sem saber se partia atrás da garota e a viúva Das Dores sem informações para espalhar pela cidade.

A jovem garota de sangue divino, movida pela fascinação da possibilidade de finalmente poder ver a chuva, acaba caindo na armadilha de Joana Critério, a cafetina que pretende aliciá-la aos seus clientes poderosos. Porém, Joana Critério não contava com o fato de que as Araújo são mulheres intocáveis, mulheres sobre as quais nenhum homem jamais ousaria tocar, a cafetina pode ter dado à Clarice a oportunidade de ver a chuva, porém, também deixou a secura da maldição do querubim entrar em sua vida quando escolher a jovem para aliciar.

Conforme a leitura avança, conhecemos as mazelas do mundo por meio do olhar de Clarice, um ser puro e quase divino. É com esse contraste que Paulo usa suas palavras para falar sobre a prostituição, o tráfico sexual e a corrupção que fazia chover no bolso de Joana Critério, enquanto secava a vida de jovens que eram usadas em sua casa da luz vermelha.

(…) Afinal de contas Joana Critério tinha dentro das dependências de seu prostíbulo mais meninas do que muitas creches da própria capital, e diferente das creches, o prefeito e vários vereadores visitavam a casa da luz vermelha semanalmente para conferir onde as verbas eram usadas.

O realismo fantástico foi a escolha que o autor fez para o seu trabalho, “Clarice” é permeado por acontecimentos verossímeis envoltos em uma atmosfera fantástica-celestial onde a pureza e o mundano se chocam constantemente provocando reflexões acerca da sujeira entremeada no coração do homem, a única diferença entre a fantasia e a realidade aqui é que você não precisa ter um sangue divino para não ser corrompido pela sujeira que te cerca, como o arco de Dr. Homero deixa bem claro. “Clarice: A Última Araujo” faz chover aquele tipo de chuva de verão que você nem cogita se proteger, você quer mais é se molhar e aproveitar cada ‘gota’ da escrita do Paulo, com personagens bem desenvolvidos, uma escrita fluída com boas doses de humor, criticas sociais e uma sensação de quero mais, esse é com certeza uma obra que indico e espero que você também tenha a chance de se molhar nessa chuva.

Você pode adquirir o livro diretamente no site da editora, pelo link do blog.

Quantos cafés “Clarice, A Última Araújo” merece?

8 comentários sobre “LIVRO: CLARICE – A ÚLTIMA ARAUJO (PAULO SOUZA)

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