LIVRO: ÚMIDAS PAISAGENS – ORG. LUCIANA ISER SETÚBAL

“Úmidas Paisagens” é uma coletânea de contos sobre o feminino, sexo e maturidade, organizada por Luciana Iser Setúbal e lançado no ano passado pela Editora Penalux em uma proposta bem parecida com a do “Novena para pecar em paz”, um dos meus livros favoritos de 2018.

Luciana Iser Setúbal foi convidada a reunir autoras de São Paulo para criar uma antologia de contos escritos como parte de um projeto da Editora Penalux de publicar um livro escrito somente por mulheres em cada um dos estados do Brasil com o tema: A problematização do universo feminino.

Em “Novena para pecar em paz” os corpos nos quais as mulheres retratadas nos contos habitavam tinham um papel central no desenrolar de cada história, aqui o tema escolhido, que se encaixa muito bem com a proposta de problematização do universo feminino, são os desejos, paixões, anseios e reflexões de mulheres na faixa 60 anos, sendo escritos por mulheres de faixas etárias diversas.

Fazem parte dessa coletânea: Adrienne Myrtes, Aline Viana, Ana Clara Squilanti, Ana Rüsche, Camilla Feltrin, Chris Ritchie, Dani Costa Russo, Goimar Dantas, Isabel Dias, Izilda Bichara, Lourdes Ferreira, Márcia Barbieri, Maria Esther Sammarone, Maria José Silveira, Nanete Neves, Paula Bajer, Sonia Nabarrete e a própria Luciana Iser Setúbal que encerra a coletânea com “Última”.

A voz tem uma força impressionante, se nos deixássemos ser guiados pelas entonações e pelas pausas talvez não tivéssemos sido apunhalados tantas vezes durante o trajeto.

Quando os maracujás morrerem – Márcia Barbieri

Em pouco mais de cem páginas, as autoras desconstroem tabus relacionados às mulheres, maturidade e sexualidade, fazendo com que leitor preste atenção aos problemas enfrentados por mulheres mais velhas. Eu nunca tinha parado para pensar sobre tais problemas e me vi surpreendido por nunca ter o feito, a nossa sociedade desvaloriza muito a mulher madura, as avós, bisavós e tataravós são encaradas apenas como mulheres que já fizeram seu papel de procriar, criar e que agora, já passaram o bastão para a próxima geração de mulheres que reiniciarão novamente ciclo.

A mulher mais velha é vista como uma pessoa que já viveu tudo o que deveria e que agora precisa ficar sentada, observando, contando histórias do passado enquanto aguarda o seu derradeiro dia chegar e, qualquer comportamento que se desvie do que é considerado “normal”, é associado à loucura, senilidade ou pura safadeza. Em “Úmidas Paisagens” essa visão machista associada ao etarismo é desconstruída quando as autoras nos apresentam mulheres mais velhas redescobrindo a vida aos 60 de diversas formas.

Há mulheres que sempre foram subjugadas e sufocadas pelos seus parceiros e após ficarem viúvas começam a aproveitar a vida de verdade, sem amarras, ordens ou regras impostas por outros. Mulheres que dedicaram suas vidas à cuidar dos filhos, presas ao conceito do que deveriam ser para serem consideradas boas mães, outras que nunca tiveram prazer em sua plenitude e redescobrem os prazeres do sexo, experimentando aventuras casuais, relações homossexuais e brinquedos eróticos, por que não?

Não que eu fale muito mas sou impulsiva, e quando vejo, já estou falando. Gostaria de controlar isso. Ser uma esfinge. Serena e, quando falasse, não me entregasse. Abrisse a boca só para dizer “Decifra-me”. E ficar nisso. Não completaria com “Ou te devoro”.

Fragmentos do diário de Simone (69), casada com Manuel (72) – Maria José Silveira

Associando as duas coletâneas pensadas sobre a mesma temática, é possível, para qualquer um que tenha o mínimo de sensibilidade e empatia, notar o quanto as mulheres sofrem com a cultura do machismo tão impregnada na sociedade, a mulher já nasce com estigma de sexo frágil, é tratada pela religião como objeto de propagação da espécie devendo submissão ao homem, é tratada como objeto sexual a vida inteira tendo seus corpos tratados como mercadoria, com a sociedade hiper sexualizando a exposição de qualquer centímetro de pele a mostra, sendo responsabilizadas pela falta de caráter do homem que abusa, estupra e mata, elas enfrentam tudo isso para chegar à maturidade e serem inutilizadas pela sociedade e aquelas que ousam clamar por liberdade de seus corpos, mentes e vidas, ainda ganham mais um rótulo na vida, o de loucas, safadas e senis. Pense nisso!

“A resposta da vida à entrega tímida pode ser uma rotina sem emoções”. Mamãe me disse, certa vez, mas eu não considerei que estivesse falando de si, mas de mim.

Pelos brancos – Dani Costa Russo

“Úmidas Paisagens” é um livro que celebra o feminino, mães, avós e bisavós não são somente cuidadoras, são mulheres com suas próprias necessidades, medos, inseguranças, prazeres e histórias que devem ser respeitadas. Os contos mostram ao leitor que nunca é tarde para se redescobrir, nunca é tarde para viver um grande amor, revisitar amores antigos ou apenas satisfazer suas necessidades sexuais da forma que melhor lhe apetecer e que qualquer problema que você tenha com a liberdade alheia, é só isso mesmo, um problema seu, a “loucura” e a “falta de pudores” são apenas nomes que inventamos para suprimir uma liberdade que foi transformada em tabu.

Quantos cafés “Úmidas Paisagens” merece?

Um comentário sobre “LIVRO: ÚMIDAS PAISAGENS – ORG. LUCIANA ISER SETÚBAL

  1. RODRIGO disse:

    Adorei o tema dos contos. O maravilhoso bistrô francês, de forma romantizada, fala sobre o mesmo tema, como ser mulher aos 60 anos. Muito bom ver trabalhos que documentam a vida de mulheres nessa faixa etária.

    Curtido por 1 pessoa

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