LIVRO: AS FÚRIAS INVISÍVEIS DO CORAÇÃO – JOHN BOYNE

“As Fúrias Invisíveis do Coração” é o romance mais recente do autor irlandês John Boyne, autor de livros como “O Menino do Pijama Listrado” e “O Menino no Alto da Montanha”, lançado aqui no Brasil em 2017 pela editora Companhia das Letras com tradução de Luiz A. de Araújo.

“Agora, Catherine Goggin”, continuou o padre Monroe, pousando a mão no ombro dela e apertando com força o osso entre os dedos. “Perante Deus, a sua família e toda a boa gente desta paróquia, você vai dizer o nome do rapazinho que dormiu com você. Diga o nome agora para que ele confesse e seja perdoado perante aos olhos do Senhor. E, depois disso, você vai sair desta igreja e desta paróquia e nunca mais voltará a sujar o nome de Goleen, está ouvindo?”

Ambientado na Irlanda, país de origem do autor, entre os anos de 1945 até 2015, “As Fúrias Invisíveis do Coração” mostra a evolução das políticas que tangem a homossexualidade e também um pouco dos direitos da mulheres em um país que até o ano de 1993 considerava e tratava a homossexualidade como crime. A sociedade alicerçada pelos dogmas e doutrinas da Igreja Católica foi evoluindo à passos lentos e em 2015 tornou-se o PRIMEIRO país a legalizar  casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Na trama, conhecemos Catherine Goggin, uma residente da cidadezinha de Goleen que logo no início do livro é tratada como prostituta aos olhos de sua congregação quando chega aos ouvidos do padre Monroe que ela está grávida. A citação supracitada, que acontece nas primeiras páginas do livro, deixa clara a atmosfera machista e extremamente religiosa na qual o leitor irá mergulhar nas próximas 535 páginas, é necessário ter bastante estômago para prosseguir com a leitura, pois os exemplos do quanto o homem pode ser cruel aumentam exponencialmente conforme a leitura avança. Sendo assim, o ano de 1945 e os acontecimentos horrendos que culminam no nascimento de Cyril, filho de Catherine, são apenas um aperitivo do quão forte, triste e extremamente necessária a obra de John Boyne se faz em tempos onde a empatia, o respeito e a compaixão parecem ter caído em desuso.

Ciente da impossibilidade de construir uma vida sendo mãe solteira na Irlanda naquela época, Catherine se vê obrigada a encaminhar Cyril para adoção. O garoto então é adotado pelos Avery, porém eles fazem questão de deixar claro ao garoto em todas as ocasiões possíveis, que ele não é um Avery de verdade. Os pais adotivos de Cyril são Charles e Maude Avery, um casal de classe alta que adotou o garoto mais como uma forma de fazer uma boa ação do que por amor, o amor não é percebido por Cyril em nenhum momento durante sua criação, seus pais adotivos sequer consideram ser tratados por pai e mãe, obrigando garoto à chamá-los pelo nome.

Charles é um empresário mulherengo e machista que comete vários “deslizes” em sua vida de administrador, deslizes estes que são corrigidos pelo advogado da família, Max Woodbead. Maude é uma escritora, mas ela não anseia o sucesso, não anseia ser lida, ela só quer escrever, colocar suas histórias para fora, expurgar seus demônios e ter seus livros publicados são considerados por ela um mal necessário, é uma personagem extremamente forte e suas obras são mencionadas pelos personagens por todo o livro, eu gostaria de conhecer ainda mais sobre essa personagem e tenho certeza que você também ficará com essa vontade.

Em uma manhã, como outra qualquer, Cyril se depara com um garoto em sua casa, Julian, o filho de Max Woodbead, desde aquele dia, Cyril sabe que seu encontro com o garoto havia despertado algo dentro de si. Anos depois, ao reencontrar Julian em uma outra fase da vida, estudando em uma espécie de internato católico, Cyril descobre o nome para esse sentimento. Então, somos levados à acompanhar a descoberta da sexualidade do personagem, o que não é nada fácil, ser gay em uma sociedade que não tolera sua orientação sexual faz com que o período de auto-aceitação do personagem seja extremamente conturbado, marcado por riscos, acontecimentos bizarros, violência e acima de tudo, solidão.

Rezei ajoelhado no chão duro, coisa que nunca tinha feito com tanta solenidade. Por favor, não deixeis o Julian morrer, pedi a Deus. E, por favor, fazei com que eu pare de ser homossexual.

Uma coisa era certa: aquilo tinha sido o fim. Não haveria mais homens, não haveria mais garotos. Só mulheres dali por diante. Eu ia ser como todo mundo. Ia ser um cara normal nem que isso me matasse.

A solidão é o sentimento predominante nesse romance de Boyne, Cyril não pode ser seu eu completo com Julian, com os membros de sua família adotiva que não o reconhece como pertencente aos Avery, em seu emprego, em suas relações e toda essa anulação faz com que o personagem, em momentos de desespero, tente se anular também e esse é o motivo pelo qual  comete vários erros que poderiam deixar o leitor irritado se o contexto não fosse tão bem estruturado e construído durante a narrativa. Quando Cyril decide romper com a Irlanda e com tudo que ela representa em sua vida, ele tem alguns momentos de calmaria, mas não tarda para que as fúrias invisíveis de seu coração voltem para assombrá-lo e a redenção do personagem é tão dura, sensível, difícil e emocionante de se acompanhar quanto sua caminhada até aqui.

Não que eu me envergonhasse do grande número de parceiros sexuais que tivera ao longo dos anos, mas eu me dava conta que havia algo trágico na minha promiscuidade patológica. Porque, muito embora tivesse trepado com incontáveis garotos, quando se tratava de amor, eu continuava virgem.

O autor se utiliza da passagem do tempo e de seu conhecimento sobre o país ao decorrer dos anos para apresentar ao leitor um panorama completo dos sofrimentos que os homossexuais passaram naquela época na Irlanda, sofrimentos dos quais alguns países ainda incutem em seus jovens fazendo com que o suicídio de jovens homossexuais sejam comuns, o aumento dos crimes movidos pela intolerância, as mortes causadas pela AIDS, problemas psicológicos e o surgimento de pessoas oportunistas e cruéis com soluções descabidas para curar o amor. Boyne aborda todos esses assuntos aqui, a auto-aceitação, a sociedade preconceituosa, a medicina charlatã que afirma ter curas para coisas que não são doenças, a exploração sexual dos homossexuais, a violência e no fim de sua obra fala também sobre o surgimento e as devastadoras consequências da AIDS.

“As Fúrias Invisíveis do Coração” se tornou instantaneamente uma das minhas leituras favoritas da vida, John Boyne demonstra total controle sobre a sua escrita e sobre o tema que retrata em seu romance que, na minha opinião, é a melhor coisa que já li do autor até o momento. A sutileza, a verdade e toda a solidão contida na escrita de Boyne neste livro, torna o romance um exercício incrível para quem quer entender sobre o assunto e eu gostaria muito que fosse uma leitura mais disseminada por blogs e canais literários, pois a relevância do assunto tratado aqui é absurda. A obra com toda a certeza deixou suas marcas em mim e tenho certeza que deixará algumas marcas em você, caso decida ler. Esse é um daqueles livros dos quais não há como sair incólume após concluir a leitura.

Caso tenha se interessado pela obra, você pode comprar pelo link do blog na Amazon.

Quantos cafés “As Fúrias Invisíveis do Coração” merece?

5 comentários sobre “LIVRO: AS FÚRIAS INVISÍVEIS DO CORAÇÃO – JOHN BOYNE

  1. Rodrigo disse:

    Ai como eu esperei essa resenha ❤️ esse livro é incrível, tocante, por vezes até bruto, e mostra como uma vida pode ser preenchida de tristeza e solidão simplesmente por causa do preconceito das pessoas. Adorei a resenha, texto muito bem escrito.

    Curtido por 1 pessoa

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