CINEMA: US (NÓS)

“Us” (Nós) é o mais novo projeto cinematográfico do ator, produtor e roteirista Jordan Peele, que em 2018 se tornou o primeiro roteirista afro-americano a ganhar o Oscar de melhor roteiro original com o maravilhoso “Get Out” (Corra!), filme de 2017. Com nomes como Lupita Nyong’o, Elisabeth Moss e Winston Duke no elenco, o longa foi muito aguardado pelos fãs do gênero, uma vez que o cineasta mostrou em 2017 sua capacidade de criar algo novo em um gênero tão saturado quanto o terror e seus subgêneros.

Adelaide (Lupita Nyong’o) e seu marido Gabe (Winston Duke) levam seus filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex) para passar um final de semana na praia. Apesar de demonstrar certo descontentamento em estar ali, devido a um trauma de seu passado,  Adelaide dá o braço a torcer em prol do divertimento de seu marido e filhos, porém, ao anoitecer e com a chegada de um grupo misterioso em frente à sua casa, seus medos se tornam reais e bem familiares.

Assim que seu lar é invadido por doppelgängers, Adelaide e o restante de sua família se vê obrigada a enfrentar suas formas duplicadas, o longa que começa como um típico home invasion movie vai se abrindo e incorporando elementos de outros subgêneros do terror e ficado maior a cada minuto.

Essa família de doppelgängers podem parecer fisicamente com a família de Adelaide, mas as semelhanças terminam ai, suas personalidades, nomes e comportamentos são bem diferentes. Enquanto Adelaide quer manter tudo sob controle, Red é uma agente do caos, enquanto Gabe é um pai divertido e homem indefeso, sua cópia Abraham não titubeia em recorrer à violência, Zora e Umbrae são mais parecidas e Jason e Pluto formam uma relação de antítese entre o ser humano e o animal. Todos os personagens e suas cópias são bem apresentados e construídos, porém, é Adelaide e Red que roubam o filme para si.

O longa é bem metafórico e a ótima montagem dele contribui bastante para que os mistérios sejam desvendados aos poucos, conforme o telespectador vai resgatando na memória os foreshadowing entregues, a trilha sonora também é excelente enervante, os toques de piano contribuem muito para a crescente sensação de tensão e perigo e as canções escolhidas para a trilha dialogam e faz adendos aos acontecimentos, a fotografia também é muito bem feita e  diretor brinca bastante com jogos de câmeras para enganar o telespectador.

Há muita quebra de expectativa no longa, o diretor brinca com cenas clichês de filmes de terror a todo momento, meio que esfregando na cara de quem está assistindo: Ah você achou mesmo que eu ia fazer isso? Essa constante quebra de expectativa também contribui para esse clima tenso que só vai aumentando a cada momento, pois os personagens duplos, chamados aqui de “Acorrentados”, são extremamente imprevisíveis e violentos. Há referências à diversas obras do gênero que vão desde a adaptação de Kubrick para uma das obras mais aclamadas de Stephen King “O Iluminado”, até um episódio da série “Twilight Zone” original em uma cena que guarda o plot twist carpado do filme.

Jordan Peele alia muito bem o horror à comédia e aos comentários sociais que desejou trazer nesse novo projeto, deixando claro de uma vez por todas que esse é o seu estilo. A premissa básica do longa que poderia ser encarada como pessoas enfrentando seus próprios demônios é apenas a superfície do iceberg que o diretor decidiu explorar nesse segundo projeto, o uso constante de metáforas abre um leque imenso de possibilidades e discussões acerca do longa e essa grande quantidade de discussões está apontando o dedo diretamente para o telespectador.

A atuação de Lupita Nyong’o é visceral, essa mulher é incrível e já quero ela ganhando o Oscar de Melhor Atriz ano que vem, ela carrega o filme todo e isso não é uma tarefa fácil, pois seus colegas de atuação também estão ótimos em seus respectivos papeis, Elisabeth Moss que só aparece como uma participação especial choca com sua capacidade interpretativa em muito pouco tempo de tela. O único problema do longa ao meu ver é a quantidade excessiva de foreshadowing, mas mesmo esse problema, o diretor e roteirista consegue driblar na execução do filme e entrega uma conclusão que desperta no público a imediata vontade de assistir novamente ao longa, agora ciente das informações que foram dadas em sua conclusão.

“Nós” é um bolo de chocolate trufado para apreciadores do gênero, Jordan Peele mais uma vez se mostra capaz de criar uma coisa totalmente nova em um gênero tão saturado, se aproveitando de elementos de diversos trabalhos do terror, horror e seus subgêneros, porém quebrando a expectativa do fã sabichão e imprimindo sua identidade que na minha modesta opinião o tornou um dos melhores diretores e roteiristas do gênero atualmente. Se você saiu da sessão de “Corra!” confabulando que nem a Nazaré Tedesco, se prepare para sair pelo menos dez vezes mais ferrado da cabeça.

Quantos cafés “Nós” merece?

4 comentários sobre “CINEMA: US (NÓS)

  1. RODRIGO disse:

    Não assisti Corra! Me contaram os mistérios e aí perdi a vontade. Depois dessa postagem quero faltar ao trabalho e ir ver o filme e #aculpaédoLuke

    Curtido por 1 pessoa

  2. Mirosmar Camargo disse:

    Menino… Depois desse post vou correndo assistir Corra e depois esse. Amei tua impressão e aguçou super minha vontade pra assistir. Super ahazou menino. 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼😍😍😱😱😱😱

    Agora posso comentar aqui. 🤤

    Curtido por 1 pessoa

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