MAIO SCI-FI: FLORES PARA ALGERNON – DANIEL KEYES

“Flores para Algernon” é um romance epistolar de ficção científica escrito por Daniel Keyes e publicado em 1996. O romance que inicialmente foi planejado e publicado como uma história curta em 1959, foi premiado em 1960 com um Hugo Award e em 1966 com um Nebula Award, a obra ainda ganhou uma adaptação cinematográfica em 1968 intitulada “Os Dois Mundos de Charly”.

Narrada em primeira pessoa por meio dos Relatórios de Progresso do protagonista, a obra já foi adotada como leitura obrigatória em diversas escolas dos Estados Unidos, é considerada um clássico da literatura norte-americana e um marco da ficção científica contemporânea. A obra foi lançada por aqui na metade do ano passado pela Editora Aleph em uma edição em capa dura com um projeto gráfico lindo e tradução de Luisa Geisler.

Charlie Gordon é um homem de 32 anos que sofre de uma deficiência intelectual grave que lhe trouxe vários problemas durante a vida, sejam eles de ordem familiar, emocional ou social. Ele sempre teve o sonho de tornar-se inteligente e quando surge uma pesquisa envolvendo uma cirurgia revolucionária que promete aumentar o QI do paciente, Charlie não pensa duas vezes e se candidata.

Antes testado apenas em ratos, o procedimento só tornou-se aplicável ao ser humano após seu sucesso com uma cobaia em específico. Algernon, um dos ratos utilizados como cobaia, se mostrou extremamente inteligente após o procedimento, sendo aprovado em testes envolvendo um labirinto que muda de orientação diariamente. Para que você tenha uma ideia, logo no começo do livro, Charlie é instruído de resolver esse mesmo labirinto ao mesmo tempo que Algernon e sempre perde para o roedor.

Charlie divide os seus dias entre o seu trabalho em uma padaria, onde convive com seus dois melhores amigos Joe e Frank, que sempre se divertem muito com ele, e os testes para a tal cirurgia. Não demora muito para que os cientistas e professores responsáveis pelo projeto reconheçam em Charlie a cobaia ideal para testar essa cirurgia, sendo assim, ele é selecionado, pede uma folga em seu sua função simples na padaria e se submete ao procedimento cirúrgico.

Todo esse processo é relatado em Relatórios de Progresso escritos pelo próprio Charlie e esse é um dos artifícios que o autor se utilizou para tornar a experiência de leitura verossímil e imersiva, começamos com relatórios cheios de erros de escrita que vão evoluindo na medida que o personagem vai adquirindo conhecimento, pois entenda bem, a cirurgia proposta não é milagrosa, ela funciona como uma espécie de destravamento do cérebro para que o conhecimento seja absorvido, coisa que não acontecia com Charlie, então, ele precisa estudar após a cirurgia e o leitor é convidado à acompanhar esse desenvolvimento intelectual do personagem e todos os problemas que isso acaba acarretando em sua vida que era tão simples.

Sim, problemas. Junto com o personagem, o leitor descobre que o conhecimento pode ser tanto um dom quanto uma maldição. A deficiência de Charlie preservava a inocência, o fato de não ter a capacidade de armazenar informações e memórias fez com que ele desconhecesse certos fatos acerca de seu passado, essa inocência alinhada com uma percepção de realidade infantil também fazia com que o personagem não visse maldade nos atos de Joe e Frank, porém, na medida que a mente de Charlie se expande, ele descobre que ao invés de ser parte da brincadeira dos amigos, ele era o objeto de riso.

Essas novas percepções de realidade, a afloração de memórias antigas acerca de sua infância e de seus pais que o abandonaram pesam muito nas reflexões do personagem sobre suas relações sociais e questões existenciais. Conforme o tempo passa, sua inteligência cresce exponencialmente ao ponto de ultrapassar  a dos médicos e cientistas que planejaram o experimento, o que também se revela um grande problema à ser observado, compreendido e ajustado por Charlie. A descoberta tardia dos sentimentos e do primeiro amor, do sentido da família, da obsessão que acabou gerando seu sonho de ser mais inteligente, de pequenos e fundamentais tratos sociais, consciência coletiva e legado fazem da leitura dessa obra uma experiência única de estudo sobre o ser humano como “espécie desenvolvida”.

Charlie torna-se uma ameaça aos olhos daqueles que antes o considerava um coitado, imbecil e inútil. Esse desenvolvimento acelerado do personagem faz com que os outros personagens ao seu redor temam pelas suas ações e temam pelas suas próprias posições, pois Charlie evolui intelectualmente ao ponto de deixar essas pessoas bem para trás, se formos analisar pela ótica dos personagens que cercam Charlie, eles sentem que agora eles que estão no patamar que antes colocavam o pobre rapaz, portanto, essa alteração de papel provoca mudanças em absolutamente todos os personagens. A obra é muito bem escrita e todos os seus pontos são amarrados em sua conclusão, um final agridoce, porém irretocável.

Antes de finalizar, preciso tocar num ponto que me chamou bastante atenção durante a leitura por ser associável com algo muito triste que está acontecendo. A mãe de Charlie é uma mulher que não se conforma com o fato do filho não se desenvolver e acaba apelando para todo o tipo de tratamento possível para ter um filho dentro do que a sociedade considera normal, quando o normal deveria ser o amor incondicional por uma criatura que não é só indefesa por ser uma criança, mas também por ter uma condição especial.

Essa semana vi algumas reportagens à respeito do retorno do MMS (Solução Mineral Milagrosa), um remédio falso que promete curar doenças como o autismo, câncer e HIV. As pessoas que estão disseminando o MMS afirmam que a substância funciona efetivamente e que foi proibida no Brasil e em vários lugares do mundo, pois poderia levar as indústrias farmacêuticas à falência, assim eles abusam do desespero de pessoas com pouco discernimento e informação para propagar a loucura de que a ingestão de dióxido de cloro (substância altamente corrosiva, utilizada inclusive no tratamento da água) é benéfica para a saúde dessas pessoas e eliminaria o foco dessas doenças devastadoras, peço encarecidamente, caso conheça algum ponto de venda ou algum caso envolvendo a substância, faça uma denúncia ao Ministério da Saúde para que possamos nos livrar dessa merda o mais rápido possível. Não há soluções milagrosas para curar o autismo, o câncer ou o HIV, mas com conhecimento e instrução podemos nos livrar desses charlatões que ameaçam a saúde de crianças e pessoas desesperadas. Lembre-se, não importa o quão grande é o seu conhecimento se você não o utiliza para fazer o bem.

“Flores para Algernon” é uma obra que vai te fazer refletir sobre suas percepções de mundo, assim como também vai te fazer questionar certos pontos da natureza humana e do significado da humanidade. A leitura flui bem, mas não é uma leitura fácil e simples, Daniel Keyes machuca, incomoda, emociona e faz o leitor refletir muito durante a leitura, há um exercício de empatia transformador nessa obra, eu pelo menos sinto que encerrei a leitura diferente de quando comecei, espero que você também possa se permitir transformar.

Gostou das minhas impressões de “Flores para Algernon”? Você pode adquirir a obra pelo link do blog na Amazon. Grande abraço e até o próximo café!

Quantos cafés “Flores para Algernon” merece?

12 comentários sobre “MAIO SCI-FI: FLORES PARA ALGERNON – DANIEL KEYES

  1. Rodrigo disse:

    Pela misericórdia. Passei da livraria e olhei pra ele e quase comprei. Ontem estava na Amazon procurando presentes, quase comprei ele. Como não ler ele agora, depois dessa resenha??? Como? Vamos me diga???

    Curtido por 1 pessoa

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