JULHO NACIONAL: O FRÁGIL TOQUE DOS MUTILADOS – ALEX SENS

“O Frágil Toque dos Mutilados” é o primeiro romance escrito pelo autor mineiro Alex Sens. Com este trabalho, o autor ganhou em 2012 o Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura na categoria Jovem Escritor. Publicada pela Editora Autêntica, essa é a minha segunda experiência de leitura de obras do autor, minha porta de entrada para a sua escrita aconteceu com sua antologia de contos “Corações Ruidosos Em Queda Livre”, livro publicado pela Editora Penalux.

Com uma sequência lançada recentemente, “A Silenciosa Inclinação das Águas”, e uma terceira parte a ser lançada no próximo ano, o romance que dá início à uma trilogia de drama familiar, coisa pouco comum de se ver por aí, se passa ao longo de 28 dias, período no qual Magnólia, uma enóloga diagnosticada com TPB – Transtorno de Personalidade Borderline, decide em companhia do marido Herbert, visitar o irmão Orlando e sobrinhos Muriel e Tomas, após ficar três anos distante da família que ainda se encontra fragilizada pela morte de Sara, ex-mulher de Orlando.

Enquanto Herbert encara a viagem para a casa de praia da família da esposa como uma oportunidade de relaxar e se concentrar em seu ensaio sobre “As Ondas” de Virginia Wolf, Magnólia encara a estadia como um verdadeiro suplício e atentado à sua sanidade, essa sensação só piora quando ela descobre que sua irmã Elisa se unirá à essa reunião familiar. Os personagens dessa obra são como bonecas russas, a cada camada retirada vamos descobrindo um segredo novo, que após investigado, constata-se uma ranhura que, quando deslocada, revela uma nova camada, um novo segredo, uma nova armadilha.

Orlando era radialista quando perdeu sua mulher para o mar, devastado com a perda, abrigou seu coração no álcool até se ver obrigado a lutar contra o remédio que tornou-se um veneno.

Elisa, sempre esteve presente na vida do irmão, ajudando-o a superar o luto, trazendo consigo uma tranquilidade e paz quase palpáveis, uma casca de energia positiva para esconder um fato importante sobre si mesma.

Magnólia não esteve tão presente nos últimos anos e só acompanhou e ajudou o irmão por meio de ligações telefônicas, enquanto construía sua carreira, lidava com seu transtorno e trocava de medicamentos até encontrar um que a domasse, mas sem nunca deixar de tomar alguns cálices de vinho durante a semana.

“— Está tudo bem — disse, suspirando. — Você não precisa fazer nada disso. Parece que tudo está bem, por que mexer no vespeiro?

— Porque a existência do vespeiro me irrita. Não posso viver assim, Herbert.”

Não há possibilidade alguma de um convívio harmônico entre esses três irmãos, pois Magnólia não consegue ficar calada, o controle é uma antítese de sua personalidade e isso se torna mais evidente quando ela decide jogar os remédios controlados pelo ralo e utilizar as diversas garrafas de vinho que seu irmão comprou como forma de amenizar a maré, porém, só acaba alimentando o monstro marinho dentro de si.

Ela é, sem dúvidas, a personagem mais interessante da obra, o que é bem difícil de se dizer, uma vez que Alex Sens constrói absolutamente todos os personagens com maestria, detalhes e verossimilhança. O descontrole de Magnólia frente aos segredos dos outros faz com que ela se torne uma personagem bomba relógio interessante de ser observada e de se acompanhar a contagem regressiva que antecede a explosão, mas tudo à uma distância segura.

“— E agora eu não sei o que fazer… Não consigo abrir uma simples garrafa de vinho, não posso beber quando quero nem o quanto quero, e você vem com esse papo furado de me levar uma taça! Eu não sou mulher de taça, eu sou mulher de garrafa, de galão!”

Embora tenha esse horror declarados aos segredos, à falta de combatividade de Elisa, à dificuldade de seguir em frente e assumir descontrole que Orlando carrega e até mesmo ao amor do marido que faz de tudo por ela e que ela sabe que hora ou outra vai acabar desistindo ou cansando de suas crises constantes, Magnólia também guarda seus segredos, a diferença é que não consegue disfarçar o sofrimento que carregar segredos causa em sua alma, não há chapéus suficientes para esconder o tormento de tentar esconder, mascarar ou conter emoções.

A descoberta de uma carta fará com que a enóloga se obrigue a esconder um  grande segredo, esse fato aliado ao ambiente instável, a bebida e a falta de remédios, faz com que as ondas de conflito tornem-se tempestades caóticas acontecendo no meio da sala de jantar.

Como eu disse anteriormente, todos os personagens da obra são construídos de forma brilhante e verossímil, não posso deixar de citar nessas minhas impressões sobre a sutileza com que o autor tratou a descoberta  da homossexualidade de Tomas, o aflorar da sexualidade em uma criança que ocorre em meio à esse caos, como se fosse um pequeno núcleo dentro dessa novela, um núcleo que espero com ansiedade ver os próximos capítulos em “A Silenciosa Inclinação das Águas”.

Alex Sens é um autor incrível que eu nunca vou cansar de panfletar, sua escrita tem muita poesia, um vocabulário rico e extenso, um poder de descrição que quase te faz conseguir sentir cheiros, gostos e texturas, além de ter uma das coisas que eu mais gosto de encontrar em livros: personagens que incomodam ao mesmo tempo que fascinam o leitor.

“O Frágil Toque dos Mutilados” é um retrato de uma família emocionalmente mutilada, onde os membros tentam esconder de si mesmos e dos outros seus segredos, dores e mutilações, mas acabam sendo perturbados por uma mulher que não tolera vespeiros, não tolera segredos e não consegue conter sua natureza de maré. Magnólia é uma bomba relógio, uma armadilha, uma personagem única que você precisa conhecer!

Caso tenha gostado das minhas impressões e se interessado pela obra, você pode adquirir pelo link do blog na Amazon. Confira também as impressões da Jeniffer Geraldine sobre o livro.

Quantos cafés “O Frágil Toque dos Mutilados” merece?

11 comentários sobre “JULHO NACIONAL: O FRÁGIL TOQUE DOS MUTILADOS – ALEX SENS

  1. Isa Cereser disse:

    Lucaas o que eu faço contigo ? Excelente resenha e confesso que desde os trechinhos que você mostrou fiquei com vontade de ler, parece ser um livro incrível. #AculpaédoLuke. hahah.

    Curtido por 1 pessoa

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