JULHO NACIONAL: DIÁLOGOS EM ESTADO PURO – LOURENÇO DUTRA

“Diálogos em estado puro” (2018) é um livro de contos escrito por Lourenço Dutra, autor e professor nascido em Brasília, que já publicou diversas outras obras como: “O olhar dos outros” (2007), “Os aliciadores” e “A guerra dos gêneros” que assim como seu mais recente trabalho, também foi lançado pela Editora Penalux.

Composta por vinte contos, a antologia é o meu primeiro contato com a escrita do autor, que conseguiu me tirar de uma pequena ressaca literária no final do mês passado. A sua escrita é simples e os contos são bem curtinhos e envolventes, tornando a leitura deleitosa e rápida. Como são muitos contos, não falarei sobre cada um deles individualmente, citarei os que mais me agradaram e comentarei sobre a obra como um todo.

Todos os contos são narrados em formato de diálogos, sendo assim, o processo de leitura se assemelha muito com nossas captações de conversas alheias em nossas rotinas cotidianas, essa escolha de narrativa faz com que a leitura flua com bastante rapidez. Apesar de curtos e rápidos, os contos não são vazios, cada diálogo tem algo à dizer, alguns de forma mais explícita que outros.

A antologia abre com o conto “Casta”, onde um personagem decide reunir funcionários para expressar sua insatisfação com seus serviços de forma bastante anti-ética, abusando de sua autoridade e assediando moralmente seus subalternos. Enquanto o ódio pelo comportamento do personagem infla o ódio do leitor, Lourenço Dutra aproveita o espaço para exemplificar o quanto é perigoso dar poder para alguém que não está preparado para fazer uso do mesmo.

O autor também exemplifica muito bem o preconceito e a intolerância em contos como “Supremacia”, que aborda uma intolerância cega, violenta, hipócrita e burra, uma vez que é praticada contra um semelhante, “Quase um monólogo”, que retrata fielmente características enojáveis das pessoas que se dizem “cidadão de bem”, “Variedades”, que exemplifica aqueles que se utilizam de discursos de ódio para encobrir seus desejos mais ocultos, enquanto “Convertidos” e o incrível “Refugiado” tocam em questões de intolerância religiosa e cultural.

Há espaço também para criticar o homem moderno e sua falta de maturidade, sabemos muito bem que mulheres são infinitamente mais maduras que homens, me faltam dedos para contar a quantidade de trintões agindo como moleques de doze, cinquentões e suas síndromes de Terra do Nunca e a coisa é só ladeira abaixo. Recentemente vimos o caso de uma influencer que teve seu contrato com uma empresa de games suspenso ao ser linchada virtualmente por homens incomodados com um tweet que dizia que homens são um lixo, bem, acho que nem preciso dar minha opinião né? Que se dane, vou dar: Homens são um lixo, e são ainda mais lixosos quando decidem tirar o emprego de alguém por serem frágeis demais para reconhecer o quanto o sexo masculino tem sido tóxico com as mulheres desde SEMPRE! Contos como “Figurinhas”, “Penas e Canos”, “Cafuné” e “Pontos de vida, pontos de vista”, refletem vários aspectos da imaturidade masculina e da masculinidade tóxica.

Como todo atacado, uma hora acaba cansando e revidando, temos aqui alguns contos que tratam desse contra-ataque, “Cativeiro”, “Ódio, orgulho e esperança”, “Resistência”, “Intimidade Printada” são momentos de respiro na antologia que nos fazem vibrar ao ver gente escrota se ferrando.

Há também espaço para uma crítica ao mercado editorial, em “Mágoa” acompanhamos a frustração de um autor que não é reconhecido pela crítica especializada e é amplamente ignorado quando encaminha e-mails à jornalistas para que divulguem o lançamento do seu novo livro, também surgem aqui algumas respostas/alternativas para amenizar a frustração do autor, em contrapartida, acompanhamos em “Noite de Autógrafos” um autor extremamente recluso sendo ridicularizado por um “amigo” de infância em pleno lançamento de sua nova obra, um escândalo que faz com que seu livro figure entre os mais vendidos e torne-se um best-seller instantâneo, talvez o protagonista de “Mágoa” só precisasse de um colega de infância sem noção afinal.

Perto do final, temos “Laudo”, onde o autor nos apresenta uma reunião do corpo docente de uma escola, onde se discute o comportamento dos alunos. Aqui temos uma representação incrível do quanto as nossas instituições educacionais estão despreparadas para receber pessoas plurais, com transtornos, deficiências e condições especiais e o quanto esse despreparo afeta não só a educação dessas pessoas, mas também os profissionais que se vêem obrigados a trabalhar com situações cujas quais desconhecem, não possuem instrução, estrutura ou preparo para lidar.

“Diálogos em estado puro” é um livro que demonstra seu poder ao fazer com que o leitor questione comportamentos usuais, corriqueiros e cotidianos que escondem, tentam esconder ou simplesmente explicitam (principalmente em uma era onde o próprio presidente não mede esforços para tornar a sociedade ignorante, intolerante e cega) o pior lado da humanidade, um lado que sequer se esforça para usar uma coisa tão importante quanto a empatia e o senso de coletividade.

Gostou das minhas impressões de “Diálogos em estado puro”? Você pode adquirir a obra diretamente na loja da Editora Penalux, ou na Amazon pelo link do blog.

Quantos cafés “Diálogos em estado puro” merece?

3 comentários sobre “JULHO NACIONAL: DIÁLOGOS EM ESTADO PURO – LOURENÇO DUTRA

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