JULHO NACIONAL: O QUINZE – RACHEL DE QUEIROZ

“O Quinze” foi o primeiro romance escrito pela escritora, tradutora, jornalista e importante dramaturga brasileira Rachel de Queiroz. A obra que foi publicada em 1930, escrita quando Rachel tinha apenas 19 anos de idade, nos apresenta a realidade da grande seca que atingiu o nordeste em 1915, seca esta que foi vivenciada pela autora em sua infância e levou sua família a mudar-se inicialmente para o Rio de Janeiro.

Na trama conhecemos Conceição, uma professora solteira de 22 anos que mora na capital e costuma passar as férias na fazenda da família no Ceará, a personagem é uma mulher independente, culta, com pensamentos e atitudes à frente de sua época, além disso, ela é uma mulher que se importa com o outro, o que se justificaria por si só pela profissão que exerce, buscando sempre ajudar o próximo da melhor forma que consegue, sem julgamentos ou condições.

São nessas visitas de Conceição que a moça se aproxima de seu primo Vicente, um homem trabalhador, com uma personalidade tanto quanto bruta e uma constante desconfiança acerca das pessoas que vivem na cidade, desconfiança essa adquirida ao descobrir que seu irmão, após tentar uma vida melhor em Fortaleza, acabou por se tornar pedinte. Vicente e Conceição constroem uma relação com constantes flertes, porém, eles não chegam à vingar, uma vez que a desconfiança de Vicente acerca do pessoal da capital funciona como um impeditivo.

Na medida que a seca começa a se prolongar e não se vê sequer possibilidades de chuva, o pasto para o gado começa a minguar e alguns fazendeiros, cientes das condições, decidem soltar o gado. Chico Bento trabalhava em uma dessas fazendas onde os gados foram soltos e tendo em mente a situação de seca e o recente desemprego, se vê obrigado à buscar passagens para Fortaleza, porém, devido à ganância do homem que se aproveita da oportunidade para lucrar com a desgraça alheia, Chico se vê obrigado à fazer o percurso com sua família até Fortaleza a pé, enfrentando a fome, o sol na cabeça e as intempéries cruéis da seca que marcará a vida da família tão profundamente quanto as estrias do solo nordestino.

Enquanto o retirante caminha com sua família tentando fugir da seca, Conceição tenta entender a obstinação de Vicente, que continua trabalhando incessantemente apesar das adversidades cada vez maiores. Conforme a seca se estende, Conceição consegue convencer sua avó à partir para a capital consigo, porém Vicente insiste em continuar cuidando da fazenda enquanto a seca não cessa. É na capital que Conceição conhece a realidade triste e desumana dos campos de concentração, locais providenciados pelo governo para abrigar retirantes.

Como a maioria das coisas “oferecidas” pelo governo, os campos de concentração que deveriam funcionar como abrigo aos retirantes, possuem condições desumanas, o local é sujo, sem estrutura, superlotado e um prato cheio para a proliferação de doenças. A miséria e as condições desumanas desses campos de concentração chegaram a matar centenas de pessoas diariamente. Comovida pela realidade daquele local, Conceição passa a trabalhar como voluntária em um dos campos de concentração, onde seus caminhos cruzam com a família de Chico Bento e assim, as vidas de todos os personagens dessa trama são transformadas pela seca.

A obra é muito bem contextualizada historicamente, por ter vivido essa situação lamentável de perto, a autora nos oferece um retrato fidedigno sobre o sofrimento dos retirantes, sobre o amor e a humanidade em tempos difíceis, mas também não deixa de expôr o pior lado do ser humano que se aproveita da necessidade alheia para lucrar e do nosso governo que propõe soluções paliativas para lidar com a população como se estivesse tampando um vazamento de uma barragem com durex.

“O Quinze” é uma obra muito bem escrita, contextualizada e importante para que todos nós possamos conhecer a realidade da seca, pois o distanciamento que temos desse assunto não nos permite ver o quanto essa realidade é triste e desumana. Essa é a minha primeira experiência lendo Rachel de Queiroz e sem dúvidas, não será a última, é impressionante que, com apenas dezenove anos e em seu livro de estreia, ela tenha feito um trabalho tão rico em informação, literatura e história, um trabalho tão relevante, carregado de uma brasilidade que infelizmente poucos autores nacionais se preocupam em expôr atualmente, além de criar uma personagem feminina incrível, forte, independente e empoderada, por mais livros carregados de brasilidade nas obras nacionais.

Gostou das minhas impressões sobre o livro? Adquira o “O Quinze” pelo link do blog na Amazon.

Quantos cafés “O Quinze” merece?

7 comentários sobre “JULHO NACIONAL: O QUINZE – RACHEL DE QUEIROZ

  1. Ana Ramos disse:

    Esse livro é de um sentimento que não dá nem para colocar em palavras, parece que você sente cada raio de sol e enxerga cada coisa que ela descreve. Para mim, a personagem principal é a seca, que está sempre ali controlando as marionetes. Foi o segundo livro da autora que eu li, mas é o meu preferido com certeza!

    Beijo, Luke!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Isa Cereser disse:

    Esse livro é incrível, me marcou de uma forma que nem sei por em palavras. Sem duvidas quero conhecer outras obras que retratam essa questão da seca no Nordeste. Uma obra essencial para quem é fã de literatura nacional.
    Beijo Frô!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe uma resposta para RODRIGO LUCAS Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.