JULHO NACIONAL: ENTRE RINHAS DE CACHORROS E PORCOS ABATIDOS – ANA PAULA MAIA

“Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos” foi o terceiro trabalho publicado pela autora e roteirista carioca Ana Paula Maia. Composta por duas novelas, a obra publicada pela Editora Record em 2009, foi anteriormente concebida no formato de folhetim pulp para a internet.

Para quem não está familiarizado com o pulp fiction, é um gênero de revistas, novelas, romances e filmes, regados à aventuras com muita violência, cenas chocantes e uma certa extrapolação da realidade. Aqui no Brasil o gênero ganhou vida graças ao filme homônimo de Quentin Tarantino. Quem está familiarizado com esse tipo de literatura vai reconhecer as influências na escrita da autora que se utiliza de frases curtas, acontecimentos nonsense e muito sangue nas duas novelas (“Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos” e “O Trabalho Sujo dos Outros”)  que compõem obra, o diferencial aqui é que ela usa essas características para fazer críticas sociais pertinentes e atuais.

A primeira novela “Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos” narra o cotidiano de Edgar Wilson (personagem que já havia conhecido em “Enterre Seus Mortos”) um homem frio, bruto e prático que trabalha abatendo porcos para distribuí-los em frigoríficos e se diverte ao final do dia apostando em uma rinha de cachorros com seu amigo e ajudante de trabalho Gerson, um homem que possui a mesmas características de Edgar, embora não tenha um pensamento tão pragmático quanto o do amigo.

Gerson possui um problema renal que preocupa o amigo Edgar e atrapalha a rotina de trabalho dos dois, uma vez que o amigo precisa faltar ao trabalho sempre que tem uma crise. Anos atrás Gerson doou um dos seus rins para a sua irmã que naquela época precisava do órgão para sobreviver e hoje, ele é quem está precisando de um rim.

Tendo isso em mente e dotado de toda a praticidade do mundo, Edgar lança a ideia de pegar o rim de volta, uma vez que a irmã de Gerson tornou-se uma puta que não dá a mínima para as relações familiares e sequer liga para saber se o irmão que lhe salvou a vida passa bem. Então, os personagens vão resolvendo seus problemas de forma prática, não se importando muito com os meios, o que importa principalmente para Edgar são os fins. Toda a praticidade que confere uma personalidade que pode ser considerada cruel pelo leitor, é mesclada com um profundo companheirismo entre os amigos, eles podem não se importar muito com o meio que vivem, com o que precisam fazer para sobreviver, mas se importam um com o outro e em meio às eviscerações somos brindados com Edgar poetizando a beleza do céu.

A novela é bastante violenta e incômoda, a autora não poupa o leitor de descrições ricas e detalhadas do processo de abate dos porcos, da missão de Gerson para resgatar seu rim, ou das reviravoltas envolvendo o caso extraconjugal de Rosemary, a namorada de Edgar. Enquanto despeja sangue com suas palavras, Ana Paula Maia mostra o cotidiano dessas pessoas brutas, cuja praticidade é extrapolada ganhando atos nonsense, tece críticas à respeito do nosso consumo em cenas incríveis onde personagens não se preocupam muito com a procedência do alimento que estão consumindo, desde que satisfaça a fome, o que não é muito diferente da relação de Edgar e Gerson, que não se importam com o que vão precisar fazer desde que os problemas sejam resolvidos no final.

A segunda novela “O Trabalho Sujo dos Outros” narra o cotidiano de três homens que cumprem funções que ninguém quer fazer, eles recolhem nosso lixo, quebram o nosso asfalto, desentopem nosso esgoto e ganham mal por isso. Erasmo Wagner é um coletor de lixo, em seu itinerário são recolhidos mais de vinte toneladas de lixos por dia, ele já está habituado com sua função, conhece o conteúdo dos sacos de lixo pelo cheiro, formato e peso e aprendeu a lucrar com a revenda dos restos dos outros que ainda se encontra em bom estado, o dinheiro que consegue com essa revenda chega a representar a metade de seu salário.

Mas tudo vira lixo, inclusive ele é um lixo para muitas pessoas, até para os ratos e urubus que insistem em atacá-lo. Mas não liga, esses agem por instinto. Sentem seu cheiro podre e avançam. Os outros, seus semelhantes, não avançam, eles recuam para longe. Como fazem com os detritos que jogam pra fora de casa, os restos contaminados.

Edivardes, primo de Erasmo, trabalha desentupindo esgoto, enquanto Alandelon, irmão caçula de Erasmo trabalha quebrando asfalto e já começa a ter a audição afetada pela exposição ao barulho e a vibração da britadeira. Os três homens representam a escória da sociedade, figuras das quais não vemos, cumprem suas funções de forma invisível, não possuem traços ou humanidade aos olhos de quem não faz parte do mesmo meio social. Certo dia, movido por mais um acidente fatal envolvendo um coletor de lixo que não mais passará seus dias pendurado nos estribos de um caminhão coletor e pelos salários ridículos que recebem para recolher o lixo das pessoas, incluindo corpos que as pessoas abandonam em sacos pretos, o sindicato dos coletores decide entrar em greve e só assim, com a cidade mergulhada na própria sujeira é que esses homens são vistos como necessários, porém, a claridade na visão só dura até que as ruas sejam limpas novamente.

O elemento nonsense nessa novela fica por conta de um bode e a relação mística de Erasmo com o animal, como de costume, as obras da autora sempre apresentam o ser humano ao lado de um animal e o animal representado em cada uma de suas histórias possuem uma função específica que movimenta a trama de alguma forma, ou servem de metáfora para características dos próprios personagens ou da crítica que a autora deseja passar.

“Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos” é um livro de leitura fluída e rápida, mas não é um livro de leitura fácil, as histórias de Ana Paula Maia contidas nessa obra são para leitores de estômago forte, pois a autora não economiza em descrições, sangue, violência e cenas nonsense. Contudo, é uma leitura extremamente válida. A literatura que tem o poder de mudar algo em nossas vidas estão contidas nos livros que nos gera incômodo, choque e nojo, ao retratar pessoas exercendo funções consideradas sub-empregos e tendo que conviver com nosso lixo, se aproveitando de nossos restos para conseguir complementar renda, tendo como paisagem disponível apenas lagos de chorume, Ana Paula Maia demonstra ter o poder de fazer com o que leitor pare para pensar nessas pessoas tidas como invisíveis, nos nossos hábitos de consumo e no ser “humano” que dizemos ser enquanto deixamos nossa humanidade de lado ao invalidar a existência daqueles que fazem o trabalho sujo que ninguém quer fazer.

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Quantos cafés “Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos” merece?

4 comentários sobre “JULHO NACIONAL: ENTRE RINHAS DE CACHORROS E PORCOS ABATIDOS – ANA PAULA MAIA

  1. Mirosmar Camargo disse:

    Só tenho a dizer que já tá na lista né? Resenha incrível, me deixou louco para ler. Ahazou! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼 Mas deixa eu confessar uma coisa, acho que nunca irei resenha os livros dela, sério até hoje tentei Enterre Seus Mortos e nada, simplesmente não consigo. 😂😂😂😂

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