JULHO NACIONAL: A TRAVESSIA DOS CONDENADOS – FERNANDA VIEIRA

“A Travessia dos Condenados” é o primeiro conto publicado de forma independente pela jovem autora Fernanda Vieira.

Ambientada na Inglaterra em 1899, a trama nos apresenta Zackary Voguel, um jovem de 21 anos de família rica, que acabou de perder sua mãe em circunstâncias misteriosas que indicam um suicídio. Ela foi encontrada pelos serviçais com seu pescoço dilacerado por um corte, suas vestes banhadas em seu próprio sangue e portando um punhal na mão já fria e endurecida pela chegada da morte. A morte inesperada da mãe e a falta de um bilhete, uma despedida, ou qualquer pedaço dela no qual ele pudesse se agarrar para tentar entender o que aconteceu, faz com que Zackary mergulhe em uma melancolia profunda, fazendo constantes visitas ao túmulo da mãe e chamando a atenção dos vizinhos fofoqueiros.

Os boatos acerca do comportamento estranho do jovem faz com que seu pai decida tomar uma atitude. Ele circula entre os criados a notícia de que Zackary passará uma temporada no exterior para estudar e se afastar do ambiente que lhe faz recordar a presença da mãe. O jovem, mesmo contrariado, cede à tentativa do pai de amenizar sua dor, mas acaba descobrindo que seu verdadeiro destino é o Manicômio St. German quando fugir se mostra impossível.

Em defesa da moral e dos bons costumes, esses homens e mulheres eram classificados como degenerados e, tão logo, retirados do convívio social. O manicômio era um lugar de descarte, um artifício desumano para livrar-se dos que viviam fora do padrão estabelecido.

Dada a inevitabilidade de sua situação, Zackary passa a investigar seu novo “lar”, sempre refletindo acerca dos motivos que levaram seu pai à trancá-lo naquele lugar, afinal, seu catatonismo e melancolia não eram sintomas suficientes para justificar uma intervenção tão cruel. O Manicômio St. German é um lugar extremamente bizarro, desde suas paredes que além de sustentar as vigas que guardam o sofrimento alheio, também servem como túmulo para sepultar cadáveres ou mesmo pessoas vivas, até os seus jardins sem flores onde um carvalho rodeado por um pentagrama deixa clara a ausência de bondade e luz naquele lugar.

Através dos relatos de Zackary, vamos conhecendo o passado do manicômio, um passado envolto em acontecimentos sobrenaturais, cultos ocultistas e realização da missa negra. Quando o jovem entra em contato com uma figura fantasmagórica e descobre os propósitos daquele lugar, sua alma é condenada ao inferno, mas ele não será o único que fará a travessia.

Com um poder descritivo incrível que confere à leitura uma sensação quase que sinestésica, a jovem autora demonstra perícia com as palavras, com descrição e construção de clima e ambientação. Eu sinceramente não me recordo de ter lido alguma obra contemporânea de horror com elementos góticos nos últimos anos, uma grata surpresa. A ambientação e a época escolhida para inserir a trama, levanta questões que apesar de intrínsecas à época, ainda ocorrem na atualidade, como a intolerância religiosa e o machismo por exemplo, outro tema que permeia toda a obra é a ganância do homem, fato que parece apenas piorar conforme o passar dos anos.

“A Travessia dos Condenados” é um conto muito bem escrito, com uma ambientação apavorante, um clima inquietante, personagens bem construídos, alguns deles intragáveis e uma história surpreendentemente bem feita se levarmos em conta o fato de tratar-se do primeiro projeto publicado pela Fernanda. Esse tipo de “achado” na literatura só me faz ter a certeza de que perdemos muito ao focar apenas naquilo que as grande editoras publicam, a literatura nacional fervilha com autores super talentosos e prontos para serem descobertos, se permita conhecê-los!

Gostou das minhas impressões de “A Travessia dos Condenados”? Você pode adquirir o e-book na loja da Amazon e conhecer um pouco mais sobre a autora acessando sua página no Instagram.

Quantos cafés o conto “A Travessia dos Condenados” merece?

2 comentários sobre “JULHO NACIONAL: A TRAVESSIA DOS CONDENADOS – FERNANDA VIEIRA

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