LIVRO: A REDE DE ALICE – KATE QUINN

“A Rede de Alice” é um romance histórico escrito pela autora californiana Kate Quinn, essa é a primeira obra da autora publicada no Brasil. O livro foi lançado no mês de Maio pela TAG – Experiências Literárias em parceria com a Verus Editora para os assinantes do plano TAG Inéditos, com tradução de Rogério Alves.

Durante a Primeira Guerra Mundial, com a necessidade do maior número possível de homens nos frontes, as mulheres acabaram tendo a oportunidade de executar funções anteriormente atribuídas apenas aos homens. É assim que a jovem Eve consegue seu trabalho. Trabalhar em um escritório nunca foi seu objetivo de vida, mas como não podia lutar na guerra contra os alemães, foi com este cenário que precisou se contentar.

Sua fluência em inglês e francês (em alemão também, mas esse era um fato que deveria permanecer oculto, para sua própria segurança) desperta o interesse do Capitão Cameron que passa a observá-la. Seu segredo é descoberto e Eve é recrutada como espiã para a Rede de Alice e enviada à França, onde é treinada por Lili, a rainha das espiãs, que gerenciou uma vasta rede de informantes bem debaixo do nariz dos inimigos.

Eve é infiltrada no Le Lethe, um restaurante comandado por René, um homem ganancioso que faz qualquer coisa para manter seu padrão de vida, até mesmo administrar um ambiente onde o inimigo possa confabular sobre estratégias de guerra, apreciar um bom vinho e boa comida, enquanto do lado de fora, franceses morrem de fome.

Trabalhando como garçonete no Le Lethe, Eve consegue informações essenciais, uma vez que ninguém iria desconfiar de uma simples garçonete que não fala alemão e sequer consegue falar o inglês ou francês de forma clara, uma vez que possui gagueira.

” – Se fôssemos comuns, estaríamos em casa reutilizando as folhas de chá e enrolando ataduras para apoiar os esforços de guerra, não carregando Lugers e contrabandeando mensagens cifradas em grampos de cabelo. Lâminas de metal como eu e você não podem ser medidas pelos padrões usados para mulheres comuns.”

Já durante o pós Segunda Guerra mundial, diversas pessoas procuravam pelo mundo seus parentes desaparecidos durante o conflito. A jovem Charlie, uma universitária grávida e sem marido, nascida em uma família rica, nunca se conformou com a desistência da família em continuar procurando por sua prima Rose, desaparecida durante a ocupação nazista.

Quando seus pais à levam para a Europa para cuidar do “pequeno problema” que cresce em seu ventre, Charlie encontra um jeito de fugir para Londres com o objetivo de fazer o que ninguém da família fez até então, procurar Rose até descobrir o que de fato aconteceu.

Durante a sua busca, seu destino se choca com Eve, uma mulher agora assombrada pela traição que acabou com a Rede de Alice, destroçada fisicamente e psicologicamente e entregue ao vício do álcool, tendo que ser constantemente vigiada de perto por seu funcionário, o irlandês Finn, um ex-detento.

Foi muito interessante acompanhar as duas guerras pelo ponto de vista de duas mulheres que foram diretamente atingidas pelos conflitos, na mesma medida que foi revoltante constatar que as mulheres que inspiraram a autora à compôr suas personagens foram simplesmente apagadas da história. É comum estudarmos esses períodos tendo como base histórias escritas por homens e grandes feitos atingidos exclusivamente por homens, esse livro me fez refletir profundamente sobre quantas histórias de mulheres incríveis podem ter sido perdidas no tempo e essa é uma constatação bem triste.

“Mas não se ganhava nada pensando em todas as formas como elas poderiam ser pegas. Faça como Lili disse: tenha medo, mas apenas depois. Antes disso, é uma indulgência.”

A autora realizou um excelente trabalho de pesquisa sobre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, assim como, sobre as figuras que decidiu representar em sua obra. Como disse anteriormente, nos foi apresentado o período sempre pelo ponto de vista masculino e ver o que foi a guerra para as mulheres é uma visão extremamente necessária.

Com o fim da Segunda Guerra, as mulheres foram sendo tiradas dos postos que ocupavam na ausência dos homens e eles, mais uma vez, foram conseguindo poder sobre o sexo feminino. Isso é exemplificado de duas formas pela autora, o surgimento do New Look idealizado por Christian Dior, que trazia novamente ao vestuário feminino elementos que conferiam elegância, feminilidade e fragilidade e o fato de Charlie não conseguir sequer movimentar sua própria conta bancária sem uma autorização do pai ou marido, mesmo sendo maior de idade.

A Rede de Alice se fortaleceu em cima da estúpida crença do homem de que a mulher é um ser frágil que jamais conseguiria portar uma arma, usar uma arma, se utilizar de perfídia para conseguir reunir informações ou se utilizar de quaisquer meios sub-reptícios para atingir seus objetivos. Enquanto muitos homens pensavam que estavam salvando o mundo nos frontes, mulheres se arriscavam diariamente obtendo, codificando e distribuindo informações cruciais obtidas dos próprios lábios dos inimigos que também pecavam ao subestimar o sexo “frágil”.

A autora soube muito bem mesclar a ficção com fatos históricos, essa mistura flui de forma orgânica e todas as ações das personagens são extremamente verossímeis dado o contexto que a autora cria. Detalhes sobre o treinamento conferido às mulheres para o serviço de espionagem, os artifícios utilizados para conseguir coletar as informações e fazê-las passar pelos check-points sem acabarem presas ou mortas pelo exército inimigo, sem contar os perigos que todas as mulheres sempre enfrentaram simplesmente pelo fato de serem mulheres, agora imagine isso em um contexto onde se vive em uma cidade tomada pelo inimigo, onde é necessário medir palavras, gestos, readequar a aparência e até mesmo tomar cuidado com olhares.

Além de toda a ambientação e contexto histórico, Kate Quinn constrói personagens de forma absurdamente incrível. A decisão de apresentar os dois períodos históricos por pontos de vista diferentes e depois fundi-los, quando Charlie encona Eve em meio à sua busca pela prima desaparecida, faz com que o leitor conheça Eve ao mesmo tempo que ela decide dividir informações terríveis sobre o seu passado com Charlie, que por sua vez, amadurece em meio a relação que constrói com Eve e o sentimento inesperado que acaba surgindo por Finn. Assuntos como o machismo, a desconstrução do sexo frágil e as cobranças sociais infligida às mulheres são tratados aqui de forma crua, realista e brutal, que vai te fazer passar as mais de 500 páginas com um misto de desconforto e esperança para que os objetivos de Eve e Charlie sejam alcançados, custe o que custar.

Após a conclusão da história, a autora reserva cinco páginas de notas sobre o seu processo de escrita da obra. Nessas notas, ela revela as pessoas reais que inspiraram seus personagens, suas fontes quanto aos artifícios utilizados pelas mulheres que trabalhavam na Rede de Alice para conseguirem distribuir seus relatórios sem serem pegas e outros detalhes que demonstram o cuidado e carinho que a autora teve ao construir esse romance tão importante. Por enquanto, o livro está disponível apenas para venda diretamente pela TAG, porém, assim que for lançado pela Verus, deixarei o link por aqui e avisarei nas redes sociais do blog.

“A Rede de Alice” é um livro muito bem escrito, onde a autora desempenhou um trabalho de pesquisa incrível e extremamente necessário, objetivando trazer para a frente figuras femininas que foram extremamente importantes durante a Primeira Guerra Mundial e por motivos diversos acabaram sendo quase que completamente apagadas da história. Além do assunto extremamente relevante, Kate Quinn constrói uma história com personagens fascinantes, multifacetados, extremamente críveis e com ações verossímeis, trazendo um recorte brutal da guerra. Este é um romance que sem dúvida alguma já entrou para a minha lista de favoritos da vida, espero que no futuro, essas mulheres incríveis passem a ser citadas nos livros de história, mas fico feliz que, por ora, há pessoas incríveis como Kate Quinn, se encarregando de que elas não sejam completamente esquecidas.

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Quantos cafés “A Rede de Alice” merece?

5 comentários sobre “LIVRO: A REDE DE ALICE – KATE QUINN

  1. RODRIGO LUCAS disse:

    A história mundial sempre nos foi passada pelo ponto de vista do homem branco, hétero de classe média/alta. Realmente é impossível mensurar a quantidade de vivências apagadas por essa invisibilidade. Logicamente quero ler.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Eva Wilma disse:

    Comecei a ler, estou gostando muito. É excelente poder ler um livro sobre esse período da história, abordando a história das mulheres, que foram extremamente importante em todo o desenrolar.

    Curtido por 1 pessoa

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