MÊS DO HORROR: MIDSOMMAR

“Midsommar” é o segundo projeto do diretor e roteirista norte-americano Ari Aster, o sucessor de “Hereditário” chegou aos cinemas na última semana e, assim como seu antecessor, segue dividindo a opinião do público.

Na trama, após um evento traumático em sua vida, Dani (Florence Pugh) embarca em uma viagem com seu namorado Christian (Jack Reynor), na companhia dos amigos de Christian, Pelle (Vilhelm Blomgren), Josh (William Jackson Harper) e Mark (Will Poulter). Cada um deles busca algo diferente com a viagem, Dani quer superar seu trauma, Christian e Josh querem desenvolver suas teses de mestrado, Mark quer pegar garotas suecas e Pelle rever seus familiares.

O destino escolhido é a Suécia, onde acontece um festival de solstício (Midsommar), em uma comunidade onde alguns integrantes da família de Pelle residem. Assim que chegam ao destino, os viajantes se veem imersos em uma atmosfera totalmente inusitada, regada por drogas, chás psicotrópicos, rituais exóticos e muita luz, afinal durante o solstício, mesmo às 21:00 ainda é possível contemplar a luz do sol.

O que começa como o ideal de um retiro espiritual de férias, revela-se aos poucos uma bizarra competição, gradativamente mais violenta e bizarra, cujas regras são escritas por um oráculo de um culto pagão, com capacidades mentais questionáveis.

Essa é a premissa bem simples e o máximo que me permito dizer para te poupar de spoilers, afinal, este é um daqueles filmes nos quais quanto menos se sabe sobre, melhor é a experiência. Isso é tão verdade que, o material de divulgação do longa, foi bem restritivo na estrega de cenas e detalhes sobre a trama.Tendo isso em mente, preciso dizer que o filme é muito maior do que sua simples premissa.

Se tem um clichê que me irrita nas produções de terror atuais, é o fato de termos diversos personagens descartáveis, superficiais e unilaterais. Não há erro maior em um filme de terror do que a má construção de personagens, afinal de contas, o que vai causar tensão e horror no telespectador é o senso do perigo com o qual os personagens precisam lidar e, se você não se importa com o personagem, todo o propósito do assassino, entidade sobrenatural ou bonecos munidos de faca, acabam sendo inutilizados. Há inclusive casos desastrosos onde o telespectador quer é mais que o assassino mate todo mundo logo e acabe com aquele suplício, graças à Ari Aster, isso não acontece aqui.

Os personagens de Midsommar não são genéricos, apesar de dar essa ideia inicial. O roteiro se utiliza de tempo suficiente para contextualizar seus personagens de forma com que o telespectador se importe, assimile suas características e compreenda suas decisões e ações dentro da trama. Não há aqui o clichê: turma de adolescentes viajando ou acampando, cometendo atitudes aleatórias e sendo mortas por qualquer idiotice.

A relação de Dani e Christian é o maior exemplo disso. Em diversos momentos durante o filme, me questionei, eu já teria ido embora desse lugar, e para isso, o roteiro nos oferece duas respostas, uma mais óbvia demonstrando o que acontece com quem simplesmente ousa ir embora, e outra que faz um link incrível com a relação dos dois personagens centrais. Faz muito tempo que Dani e Christian já não são mais um casal de verdade, porém, nenhum deles consegue dar um passo em direção ao fim;

Ela é extremamente fragilizada com as constantes ameaças psicológicas da irmã, ameaças que lhe causam graves crises de ansiedade, ele não se sente confortável em deixá-la em um momento tão delicado, ela não é totalmente amparada pelo namorado mas não consegue ver isso e se apega aos fiapos de carinho que ele ainda consegue fornecer e, o último acontecimento em sua vida faz com que ele sinta-se ainda mais preso e impelido a não abandonar a moça, ainda mais fragilizada, em um momento tão complicado de sua vida. Assim, eles se veem presos à relação e também presos à experiência que poderia resolver essas questões definitivamente.

Como esse é um filme de terror, não posso me ater apenas aos personagens, preciso falar também sobre aspectos pertencentes ao gênero. O filme instiga e provoca a todo momento, desde a sua cena de abertura desconfortante que antecipa um acontecimento terrível ao telespectador, mas não entrega tudo de uma vez, o diretor mastiga a dor do telespectador e com isso faz com que a cena torne-se ainda mais desesperadora e chocante do que seria, caso ele tivesse optado por jogar tudo de uma vez na nossa cara. Essa brincadeira é feita durante vários momentos do filme, em alguns se fazendo cumprir a suspeita por antecipação e, em outros, quebrando a expectativa, sem nunca frustrar o telespectador mais sedento por cenas de ferrar com o psicológico.

Ao contrário do que é amplamente visto em filmes do gênero, o filme se passa quase que completamente no claro, o que na minha opinião evidencia o talento do diretor, afinal é muito mais difícil assustar e chocar alguém em plena luz do dia certo? Sim, o filme não assusta no sentido de te fazer pular da cadeira, esse é um daqueles tipos de filmes que te assusta por te fazer afundar na poltrona e desejar não ter visto aquela cena e nem aquela e, caramba, nem aquela outra.

Há algumas situações, principalmente no terceiro ato, que vão soar extremamente cômicas ao telespectador, eu pelo menos ri bastante, porém esse riso provocado de forma proposital é uma tentativa do diretor de fazem com que o telespectador engasgue em seus próprios pré conceitos quanto aos costumes que não nos são habituais. Pense um pouco nas cenas que te provocarão riso.

O elenco está sensacional aqui, mas é Florence Pugh que rouba a cena, é incrível como ela consegue transmitir diversas emoções em apenas uma sequência, transitando da empolgação, para o choque, a letargia e o desespero em questão de segundos. Se ela não concorrer ao Oscar por essa atuação vou considerar uma decisão bem duvidosa.

“Midsommar” não assusta com jump scares, eu nem diria que é um filme que assusta, este é um filme que incomoda, chora e perturba o telespectador não só com suas cenas gráficas e gore, mas com um dos elementos que mais gosto de me assustar em filmes do gênero, a transformação dos personagens e as ações decorrentes de suas mudanças de personalidade provocadas por uma situação fora do comum e, se tem uma sentença que pode definir bem esse filme é: mudanças de personalidade provocadas pro uma situação fora do comum.

Quantos cafés “Midsommar” merece?

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