MÊS DO HORROR: SERPENTÁRIO – FELIPE CASTILHO

“Serpentário” é o mais novo lançamento do autor Felipe Castilho, famoso pela série “O legado folclórico”, que une o folclore brasileiro com videogames, e pela fantasia “Ordem Vermelha: Filhos da Degradação”, livro publicado em 2017 em parceria com a CCXP. Além desses projetos, Castilho já roteirizou alguns quadrinhos como “Desafiadores do Destino” e a adaptação do conto “O Horror em Dunwich” de H.P Lovecraft que será lançada em breve.

No ano de 1999, Caroline, Mariana e Hélio desceram da capital paulista em direção ao litoral para encontrar Paulo, um jovem simples habituado à sua vida caiçara. Os amigos sempre se reencontravam em períodos de férias e feriados, como foi o do marcante Réveillon de 99, quando o sumiço de Mason, o cachorro de Caroline, fez com que os amigos se envolvessem em uma aventura em uma ilha misteriosa, cuja exploração revelou-se uma das piores decisões possíveis.

A busca por Mason acabou se desdobrando em uma luta pela sobrevivência e, sobreviver à Ilha das Cobras, transformou a vida dos amigos para sempre. A ilha estava bem longe de ser considerada um destino paradisíaco, o lugar hostil e tomado por víboras, escondia segredos perturbadores associados aos deuses antigos. Além de ter marcado suas vidas, aquela noite lhes fragmentou a memória de forma que eles não conseguem recordar tudo o que aconteceu por lá com exatidão.

O que nenhum deles consegue apagar da memória é a visão de uma enorme e ameaçadora serpente, além de uma pessoa sendo entregue ao ninho da víbora, um sacrifício sem chance de recusa, um abandono que marcou a vida deles de diversas formas, afastando um elo de amizade, transformando um coração, destruindo pernas, consumindo uma mente e levando consigo uma vida.

Dezenove anos após os incidentes terríveis ocorridos naquele lugar, Caroline é confrontada com um de seus piores pesadelos, tendo uma visão reveladora que lhe faz despertar para uma verdade simplesmente inacreditável. O peso que ela e seus amigos carregavam, a morte que aconteceu naquela ilha, poderia isso tudo ter sido apenas um engano? A pessoa que eles abandonaram para morrer está viva.

Sendo assim, os amigos novamente se reúnem, às vésperas de um novo Réveillon para confrontar um fantasma do passado que surge para fazer suas certezas caírem por terra. Mas será que esse reencontro foi realmente uma confluência do destino, ou alguém, ou alguma coisa os quer de volta naquele lugar?

Mentalmente, ela classificou a situação em que estava como “estranha para caralho”.

Acompanhar as aventuras de Caroline, Mariana, Hélio e Paulo me trouxe as sensações que tive ao ler histórias do Stephen King como “It: A Coisa” e “Conta Comigo” por exemplo, inclusive penso que a primeira tenha sido uma das influências para construção dessa obra, mas não a única.

O livro é recheado de influências e referências à literatura de terror e cultura pop no geral; para você ter uma noção, há capítulos nomeados com títulos de livros do Stephen King, são mencionadas cidades antigas criadas por H.P. Lovecraft, como Ulthar, Kadath e R’lyeh, além da cidade de Carcosa e outras referências à obra “O Rei de Amarelo” de Robert W. Chambers, referências incríveis que renderam momentos de gargalhadas como o programa “Fantasia”, apresentado pela Carla Peres (nunca vou superar o “dedinho na cabeça, dedinho no pulso”), o “Casos de Família”, dentre outras dezenas de referências e, mesmo captando muitas, creio que devo ter deixado algumas escapar. O melhor de tudo é que essas referências surgem de forma natural no texto e, apesar de muitas, não atrapalham o desenvolvimento da trama e nem estão ali só por estar, parabéns Felipe!

A obra não fica só nas referências, muitas questões bem atuais são abordadas aqui. A crise no mercado editorial e o abuso dos empregadores desse mercado são exemplificados no emprego e Caroline, a falta de incentivo e atenção aos atletas paraolímpicos é retratada com a mudança drástica de um personagem após um acidente automobilístico e o racismo também é retratado na figura dos empregadores da mãe de Paulo, que o tratam como um empregado em potencial, mesmo sendo ele apenas uma criança, como se esse fosse o único destino possível para um jovem negro filho de uma empregada doméstica.

A desigualdade social também é abordada, levando em conta a diferença social do grupo de amigos, Hélio por exemplo, tem um pai obtuso, machista e classicista; atributos que acabam vazando para a personalidade do filho, mas que são amplamente refutados e confrontados pelos amigos, além disso tudo, a sexualidade e a supressão da liberdade sexual pela religião também é abordada.

Haviam formas de queimar que não envolviam fogo, e as mulheres queimaram das duas formas. A África queimou e muitas outras Áfricas queimaram em pouco tempo, incluindo as que não eram reconhecidas como parte da civilização, as que haviam sido levadas longe do continente e as que ficavam amontoadas nas beiras das grandes cidades retratadas em cartões-postais.

Apesar de abraçar tantos temas e referências, a leitura em nenhum momento é cansativa, o humor ácido do autor faz com que a trama flua bem e ele sabe muito bem construir um mistério, aliado à um bom clima de tensão, suspense e doses de terror suficientes para fazer com que o leitor tema pela segurança de personagens bem construídos, interessantes, cativantes e extremamente humanos.

O fator sobrenatural da obra é incrível, o autor se utilizou de uma miscelânea de mitologias para construir sua ilha e sua entidade antiga inspirada tanto em uma criatura da mitologia nórdica, quanto nos terríveis, inomináveis e indescritíveis seres do imaginário de H.P. Lovecraft. Essa foi a minha primeira experiência lendo uma obra do Felipe, me interessei bastante em ler algo dele após ter conferido uma mesa sobre seres de literatura fantástica lá na Flipop e, se tem uma coisa que eu tiro disso tudo, é que você precisa se permitir conhecer trabalhos de autores nacionais o máximo que conseguir, vá à eventos, procure histórias e se permita abrir os olhos para um universo vasto e fantástico sendo construído por magos  e magas da escrita aqui no nosso quintal.

Não poderia deixar de fora desse texto as minhas impressões sobre o projeto gráfico do livro que é simplesmente lindo, o Antonio Rhoden foi o responsável pelo projeto gráfico, ilustrações e letterings e o Túlio Cerquize pelo design da capa de “Serpentário” e estão de parabéns, o livro ficou belíssimo!

“Serpentário” é um livro que pode ser descrito como: uma aventura absolutamente divertida, assustadora e acima de tudo DOIDA e, assim como um Ouroboro, acompanhamos personagens encarando seus medos, engolindo e digerindo traumas para se transmutarem em seres-humanos melhores, coisa que todos nós deveríamos experimentar de vez em quando.

Gostou das minhas impressões de “Serpentário”? Você pode adquirir seu exemplar pelo link do blog na Amazon e garantir 10% de desconto utilizando o cupom VIBORA10.

Quantos cafés “Serpentário” merece?

7 comentários sobre “MÊS DO HORROR: SERPENTÁRIO – FELIPE CASTILHO

  1. Giulia Rodrigues disse:

    A ilha do livro tem ligação com a Ilha das Cobras?? A que tem 9 serpentes por m²?? Eu AMO cobras com todas as fibras do meu ser!!! Especialmente as grandes o suficiente para engolir um ser humano!!! Só não quero que esse humano seja eu…

    Curtir

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