MÊS DO HORROR: VOZES DO JOELMA – OS GRITOS QUE NUNCA FORAM OUVIDOS

“Vozes do Joelma: Os gritos que nunca foram ouvidos” é uma coletânea de contos de terror e fantasia que reúne escritores como Marcos Debrito, Marcus Barcelos, Rodrigo de Almeida e Victor Bonini, com apresentação de Tiago Toy. A obra lançada no final de agosto pela Faro Editorial se utiliza do maior incêndio da história da capital paulista como motivo de construção das histórias.

Muito antes do incêndio no Edifício Joelma, o terreno situado quase na esquina da Avenida Nove de Julho (SP) já havia recebido seu status de assombrado, aquele pedaço de terra havia sido palco de um pelourinho utilizado para violentar negros escravizados considerados desobedientes, anos depois, o local continuou sendo marcado por violência quando em 1948 um crime terrível aconteceu naquele mesmo lugar. Conhecido como “crime do poço”, o assassinato ocorrido no número 104 da Rua Santo Antônio chocou a sociedade na época e serviu de inspiração para o primeiro conto da antologia, o “Os mortos não perdoam” do incrível Marcos Debrito (“Escravo de Capela” e “Casa dos Pesadelos”).

Mais uma vez, o autor demonstra ter feito um ótimo trabalho de pesquisa sobre o crime e a época na qual ele se passou para poder criar sua ficção sobre o ocorrido. Apesar de retratar um crime real, é importante deixar claro que o conto não possui a intenção aparente de ser um retrato fiel ou jornalístico sobre o ocorrido. A história contada por Debrito, que na minha modesta opinião é o melhor autor do gênero que temos no Brasil no momento, é um ficcionalização do crime ocorrido em 1948, aqui o autor faz um estudo do que poderia ter levado o personagem principal à cometer o assassinato de sua mãe e irmãs e ter tentado sepultá-las em um poço no jardim daquele local, que anteriormente servia de lar para a família Camargo.

Juntamente com os cadáveres que apodreciam no poço, Pablo soterrara o preconceito contra Isaura. Estava livre para viver a plenitude do seu amor.

Não há nenhum spoiler aqui, a história do “crime do poço” já é bastante conhecida e, por isso, o autor já deixa claro tudo o que aconteceu logo nas primeiras páginas do conto, contextualizando o leitor e entregando o final da história logo no começo, para que possamos então focar no estudo do personagem e na motivação de seu crime.

Esse é o ponto principal desse conto, o estudo que o autor fez sobre Pablo, o jovem que assassinou sua mãe e suas duas irmãs premeditadamente e tentou sepultar seus corpos em um poço no quintal, eu me peguei tendo sentimentos conflitantes acerca do personagem durante a leitura, um misto de empatia com o sofrimento que sua família causava ao atrapalhar seu relacionamento com doses cavalares de preconceito, exploração e chantagem emocional, com uma forte sensação de indignação ao descobrir a solução fria e desumana que ele encontra para se ver livre e, em sua concepção, finalmente em paz em sua própria casa.

Dessa forma, Debrito abre os trabalhos da antologia mostrando para o leitor que a maldade que originou a fama maligna daquele pedaço de terra, teve raízes no homem. Porém, o homem e sua fraqueza de espírito não é o único culpado, há algo maior por trás do homem, se aproveitando de frestas abertas e fechaduras das quais ele possui a chave para entrar, mas ainda chegaremos nesse assunto mais adiante.

O dia 1º de fevereiro de 1974 entrou para a história do país com uma tragédia que ceifou a vida de quase 200 pessoas e feriu mais de 300. O incêndio no Edifício Joelma permanece até hoje sendo o terceiro pior incêndio de arranha-céus do mundo por número de vítimas fatais. “Nos deixem queimar” é o conto de Rodrigo de Oliveira, onde retrata o incêndio e fatos que precederam a tragédia, aliando descrições terríveis da aflição das pessoas que passaram por aquele dia terrível e eventos que podem ser encontrados em reportagens da época com elementos de ficção.

A trama desse segundo conto acompanha a história de funcionários fictícios do Banco Crefisul de Investimentos, um dos locatários reais dos escritórios do edifício. Ao flagrar Gabriel, o homem que ocupa o cargo que Samara tanto almeja, em posse de fotografias terríveis retratando uma prática condenável e perturbadora, a moça vê a chance de se livrar dele e conseguir o cargo que tanto desejou.

Após uma denúncia, investigadores da polícia entram no edifício um dia antes da tragédia para prender Gabriel, este é avisado e consegue escapar antes de ser detido, porém não da forma que planejara. Diante do desaparecimento do homem que denunciou, Samara torna-se extremamente apreensiva e passa a ter pesadelos, mas nenhum de seus pesadelos chegariam perto do que aconteceria no dia seguinte, quando um curto-circuito em uma aparelho de ar condicionado tornaria o Edifício Joelma um inferno vertical.

O incêndio invadia os andares como se tivesse escapado diretamente do inferno. Seu poder não poupava ninguém, como a mulher cujas roupas foram consumidas de uma vez, de baixo para cima. Uma onda de calor cobriu seu corpo e trouxe uma dor insuportável, que a fez gritar, desesperada.

Eu não conhecia a escrita do Rodrigo, embora já tenha ouvido muitos elogios aos seus livros de zumbis, criaturas do gênero que infelizmente saturaram muito e não me brilha mais os olhos, portanto, essa foi uma ótima oportunidade de conhecer a escrita do autor. O conto é extremamente ágil, há muita ação e a escrita casou muito bem com o acontecimento que foi retratado aqui. O autor soube muito bem exprimir doses certas de drama, ação e descrição nas cenas, além de construir um ambiente ois infernal possível e, não só por conta as labaredas que tomavam o edifício andar por andar, fazendo com que os personagens entrassem muitas vezes em pânico, tendo que tomar atitudes drásticas.

Apesar de ser um ótimo entretenimento, principalmente por conta do background sobrenatural criado para o conto e a ligação com a história do Marcos Debrito, é impossível ler essas páginas sem sentir um aperto no coração pelo que aquelas pessoas passaram naquele fatídico dia por uma infelicidade e principalmente por conta de um projeto arquitetônico irresponsável sem sistemas de detecção de fumaça, contenção ou planos de evacuação.

Por falar em evacuação, durante o incêndio, treze pessoas tomaram a decisão de fugir por um elevador que infelizmente, em decorrência de uma pane, parou de funcionar e transformou-se em um forno, ceifando a vida das pessoas que ali estavam. Esse grupo de treze pessoas encontradas em um dos elevadores, que nunca puderam ser identificadas devido às condições nas quais seus corpos estavam, ficaram conhecidos como as Treze Almas do Edifício Joelma e foram sepultadas lado a lado no cemitério São Pedro, na Vila Alpina em São Paulo.

Tendo como tema o mal que afligiu essas treze almas e os mistérios e relatos que as envolvem, o autor Marcus Barcelos (“Horror na Colina de Darrington” e “Dança da Escuridão”) escreveu o conto “Os Treze” e, se já era notável a evolução da escrita do autor do “Colina” para o “Dança”, aqui essa evolução torna-se ainda mais nítida.

Em respeito às pessoas que tiveram suas vidas ceifadas de forma tão cruel e aterradora naquele elevador, o autor soube muito bem abordar o assunto de forma respeitosa, optando por uma abordagem que tende mais para o emocional do que para o terror em si, embora não deixe o gênero de lado, afinal, estamos falando de uma coletânea de contos sobre um dos maiores desastres do país.

O conto é um relato escrito por Amilton da Correia nos tempos atuais, mais precisamente em 1º de fevereiro de 2019. Neste relato, Amilton discorre sobre a sua infância e relação extremamente conturbada com o pai alcoólatra que um dia simplesmente sumiu de casa com o pouco dinheiro que a família tinha, afundando a esposa em uma depressão debilitante e obrigando o jovem à amadurecer antes da hora. Circunstâncias da vida levaram Amilton, que sempre foi conhecido como um grande faz-tudo na região, à trabalhar no cemitério onde, em fevereiro de 74, foram sepultadas as Treze Almas do Edifício Joelma.

Saí para o corredor apreensivo com o que poderia encontrar, mas tudo estava do jeito que eu havia deixado.

É claro que estava.

O que não estava mais do mesmo jeito era a minha cabeça.

Ao invés de cair no erro de tentar falar sobre as treze pessoas que morreram no elevador, Marcus fez a ótima opção de contar sobre a vida de uma pessoa que não só é afetada, como também completamente transformada pela tragédia e pelo contato com os treze. Confesso que quase chorei ao final do conto e encerro meus comentários por aqui, para evitar spoilers, mas não sem antes dizer que o autor aproveitou muito bem toda a mitologia acerca dessas treze almas para criar uma história muito tocante, talvez um alívio em meio à tanto fogo.

Após o incêndio, o Edifício Joelma ficou interditado para obras até setembro de 1978, quando foi reinaugurado, sob o nome de Novo Joelma. Em 2000 o prédio foi rebatizado como Edifício Praça da Bandeira e nada de extraordinário aconteceu por lá, apesar de inúmeros relatos bizarros de vozes e choros nos corredores da construção. Tendo isso em mente, o autor Victor Bonini (“Colega de Quarto” e “O Casamento”), ficou mais livre para criar uma história sem bases em fatos, preciso dizer que é uma grande surpresa ver um autor que até o momento vem construindo uma carreira em cima dos romances policiais, se aventurando no terror.

Apesar da história não ter base em fatos, o destino que o autor dá para o Joelma após o incêndio é muito verossímil. Abandonado após a tragédia, o que sobrou do edifício acabou sendo ocupado por movimentos sociais, abrigando pessoas humildes como a Dona Solange, personagem central do conto “O Homem na Escada”.

Solange é uma mulher humilde que teve que criar a filha Eugênia sozinha, é por isso que lhe dói tanto ver o futuro da filha sendo arruinado por um rapaz que à trata como lixo e, como se não bastasse, fez o favor de engravidá-la. Diante das diversas situações de abuso cometidas pelo namorado de sua filha, Solange se desespera e acaba fazendo um pedido, o que ela não esperava era que seu desejo seria atendido por um estranho homem que a ouviu clamar nas escadarias do Joelma.

Pelos olhos, eu nunca teria descoberto. Eles me encaram igualzinho a antes (talvez porque o traste sempre foi morto por dentro).

Livre do homem que tratava sua filha feito lixo, a senhora precisa lidar com a tristeza da filha, que não se conforma de ter sido abandonada pelo amado boy lixo com um filho no ventre, mas esse está longe de ser o maior dos problemas que Solange precisará enfrentar, segredos acerca do passado do defunto começam a submergir de um mar de lixo e a senhora precisa equilibrar suas mentiras para não ser descoberta

— O que o nosso lençol tá fazendo lá embaixo, junto com o lixo?

Parece que alguém se fodeu.

“O Homem na Escada” encerra a antologia me dando certo orgulho de ver um dos meus autores favoritos do gênero policial se aventurando no terror. O Victor construiu uma história com uma personagem muito bem construída, cercada de dilemas, segredos, transgressões e arrependimentos, tendo que equilibrar tudo isso e ainda tendo sua sanidade questionada à todo tempo por conta do elemento sobrenatural do conto. Além disso, o autor tece criticas sociais muito pertinentes como a desigualdade social e elementos relacionados ao uso de entorpecentes, como o tráfico e o vício.

Apesar dos contos serem ótimos, é a costura de Tiago Toy que torna o “Vozes do Joelma”, uma experiência diferente das antologias que costumam ser publicadas. O autor criou um demônio para unir essas quatro histórias, o “Devorador de Almas” para para conversar com o leitor sempre antes de um novo conto ser iniciado e posso afirmar com a experiência de quem leu que essas conversas não são nada agradáveis.

Humanos são tumbas ambulantes. Enterram suas verdades e tudo o que lhes causa ódio ou vergonha no mausoléu de suas almas, que coroam com uma pomposa lápide ornamentada com belas flores e um epitáfio enganoso.

A escrita nessa narrativa paralela é bem mais rebuscada que a dos outros contos, para conseguir passar a ideia de que estamos mesmo acompanhando uma história sendo introduzida por um ser demoníaco e antigo, o que foi um baita acerto! Essa narrativa do Tiago tem um propósito bem específico, pelo menos eu entendi dessa forma, posso estar errado. O demônio, o tal “Devorador de Almas” criado pelo Toy nos mostra que o mal em si não consegue fazer nada sozinho, ele precisa de braços, pernas e mãos para executar o serviço sujo e, infelizmente, os humanos, no decorrer das décadas se provaram ótimos prestadores de serviço.

Eu não poderia encerrar esse post sem comentar sobre a edição e o projeto gráfico do livro. A Faro Editorial caprichou muito no projeto gráfico realizado por Osmane Garcia Filho, a obra tem uma capa bem expressiva com dois hot stampings diferentes, um que confere relevo ao título e outro que faz uns efeitos de fogo, além disso, o livro é recheado de imagens horríveis, no bom sentido, que fazem alusão aos contos, é um livro bonito de ver na estante. Porém, infelizmente, o capricho não se estendeu à revisão, eu comecei a notar diversos erros durante a leitura e, quando já não estava mais aguentando, passei à marcá-los e, CARA, são muitos, espero que a editora corrija isso nas próximas edições, afinal, um livro com textos de ótima qualidade e um projeto gráfico tão bom não merece uma revisão capenga.

“Vozes do Joelma” é uma coletânea de contos que misturam muito bem horror, terror, fantasia, suspense e drama para abordar tragédias reais sob perspectivas ficcionais e fantásticas, reunindo atores que, pelo menos na minha visão, são referências da literatura nacional em seus gêneros específicos. Foi uma aventura incrível ler esses contos, pesquisar um pouco mais sobre os fatos que são apresentados e conhecer as histórias macabras que aconteceram naquele lugar. Espero de coração que a Faro volte à reunir esses autores em uma futura coletânea, pois a cola aqui funcionou muito bem!

Gostou das minhas impressões? Conheça você também as histórias sobre o terreno maldito na esquina da Nove de Julho, e escute os gritos que não foram ouvidos até então.

Quantos cafés “Vozes do Joelma: Os gritos que não foram ouvidos” merece?

4 comentários sobre “MÊS DO HORROR: VOZES DO JOELMA – OS GRITOS QUE NUNCA FORAM OUVIDOS

  1. RODRIGO LUCAS disse:

    Quando vi o lançamento desse livro, fiquei questionando o bom senso de se fazer uma coletânea de terror baseado em fatos tão dolorosos. Mas pela sua resenha percebi que foi mantido o respeito as vítimas e a mitologia foi bem usada e a curiosidade de ler tornou se vontade mesmo. Ótima resenha e pontos levantados.

    Curtido por 1 pessoa

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