LIVRO: UMA ESCADA PARA O CÉU – JOHN BOYNE

“Uma escada para o céu” é um romance escrito pelo autor irlandês John Boyne e publicado em 2018. Aqui no Brasil, o romance foi lançado inicialmente pela TAG-Experiências Literárias para os assinantes do plano Tag Inéditos em dezembro do ano passado, com tradução de Luiz A. de Araújo, em parceria com a editora Companhia das Letras, que deve publicar o livro com uma nova edição em breve.

Creio que John Boyne não seja um nome que necessite ser apresentado, o autor de “O Menino do Pijama Listrado”, “O menino no alto da montanha”, “As fúrias invisíveis do coração” e “O Pacifista”, já publicou mais de dezoito livros, sendo quatorze já traduzidos e lançados no Brasil entre ficção adulta e jovem, e já recebeu três Irish Book Awards e diversos outros prêmios durante a sua carreira.

“Uma escada para o céu” é um livro que fala sobre ambição e este é o principal traço do caráter de Maurice Swift, um jovem cujos maiores desejos consistem em construir uma carreira literária e ter um filho. Para alcançar seus objetivos, Maurice vai se utilizar dos seus belos olhos e de seu corpo, de sua fala mansa e de seu poder de manipular o outro oferecendo o que tem ao seu dispor, assim como uma droga, ele tem o poder de tornar as pessoas dependentes.

Dessa forma, ele vai circular em meio aos influentes e talentosos, tentando encontrar a única coisa que lhe falta para alcançar o seu objetivo de construir uma carreira literária…o talento para escrever uma história memorável. Ainda jovem, trabalhando como garçom em um hotel, Maurice teve a sua primeira oportunidade de adentrar no mundo dos escritores, essa oportunidade veio na forma do premiado escritor Erich Ackermann.

Quando conheceu Maurice, Erich estava iniciando a turnê de divulgação de seu mais recente e premiado romance “Pavor”. As obras de Erich sempre tiveram a solidão como uma temática recorrente, tema que reflete muito bem o que sua vida se tornou após um fato terrível que aconteceu em sua adolescência em Berlim durante a ascensão nazista da década de 1940.

Imediatamente atraído pela beleza de Maurice e pelas suas armadilhas, o escritor se vê incapaz de deixar com que o garçom escape e, diante do conhecimento de que Maurice sonha em ser autor, ganha pouco no serviço atual e é um grande admirador de sua obra, Erich oferece ao garoto um cargo de assistente, cargo que consiste em organizar sua agenda e fazer companhia durante as viagens da turnê de lançamento de “Pavor”.

Maurice obviamente aceita a proposta de trabalho, se excita pelo fato de poder enviar pequenos contos para que o famoso Erich Ackermann leia e lhe dê suas impressões, a oportunidade de conhecer diversos outros autores, rotina de escrita e o mundo que sonha adentrar, esses poderiam ser motivos de gratidão eterna para com Erich, mas o autor torna-se apenas um primeiro degrau em sua escalada para seus objetivos.

Com sua ambição sem limites e sua total falta de escrúpulos, de degrau em degrau, Maurice vai chegando mais próximo aos seus sonhos, deixando para trás uma série de vítimas de suas armadilhas. Assim, carreiras e reputações são destruídas, corações partidos e vidas finalizadas, no sentido mais cruel que você possa cogitar.

A obra é ambientada em diversos momentos da história e transita entre a Europa e a América do Norte, várias das locações, obras e até mesmo personagens citados na obra realmente existem ou existiram, como é o caso do pub The Crown, a obra “A Cidade e o Pilar” e o incrível romancista, dramaturgo e ativista político norte-americano Gore Vidal, que aparece na melhor parte do livro, com toda a sua perspicácia e experiência ele reconhece a podridão por baixo da casca bonita de Maurice e tenta alertar o amigo Dash Hardy sobre o problema no qual ele está se metendo.

Não posso deixar de dizer que acho no mínimo estranho a sinopse e muitos leitores atestarem a inevitabilidade de torcer pelo Maurice, pois o personagem não possui sequer um traço digno de elogios além de sua aparência, como diria a banda de hardcore Jason “…por fora é uma beleza, mas o recheio é uma merda”, ele é uma pessoa extremamente fria, inescrupulosa, manipuladora, de personalidade sociopata e psicopata, eu nunca vou entender como alguém poderia conseguir ler esse livro sem detestar Maurice e torcer para que ele se ferre das piores formas possíveis, pois esse é, sem dúvidas, um dos personagens mais detestáveis que eu já li.

Apesar de detestável, o personagem é sim intrigante, a minha torcida convergia sempre para um deslize, eu lia o livro torcendo para que ele se ferrasse e fosse descoberto e, após o primeiro golpe, é inevitável sentir curiosidade sobre até onde ele estaria disposto a ir, eu só posso dizer que Maurice vai longe demais! Este não é o único personagem intrigante, todos os personagens secundários desse romance são interessantes, não necessariamente interessantes de uma forma boa, mas ainda assim personagens que me fizeram pensar sobre diversas coisas.

Erich por exemplo é um homem que tem o amor associado à tragédia, por isso sempre escreve sobre solidão, ele me entristece por ser uma pessoa tão carente de afeto, tão desejoso por ser amado que acaba aceitando qualquer migalha como se fosse um banquete. Dash é um sem vergonha confesso, um safado mal caráter que, ao provar do seu próprio veneno, entra em um vórtice muito exagerado (tem uma cena em especifico que envolve um telefonema que justifica essa minha opinião) de dependência, autocomiseração e punição. Já Edith é uma mulher extremamente fascinante e poderosa, que peca apenas na ingenuidade e por confiar demais nas pessoas, se têm alguém por quem eu me peguei torcendo nesse livro foi por ela.

Diversas decisões do autor sobre os rumos da história, sejam eles referentes aos destinos de alguns personagens, as ações cometidas por Maurice e a parte final do romance, são bem folhetinescas, principalmente no que tange os aspectos vilanescos de Maurice, essa construção do personagem é problemática por não respeitar fatos já estabelecidos desde o princípio, preste bem atenção no que eu escrevi aqui, eu não estou reclamando de maldades cometidas por um personagem que é o VILÃO da história, isso não faria sentido. Esse aspecto me tirou um pouco da leitura algumas vezes para recarregar minha suspensão de descrença, pois eu não esperava reviravoltas de novela das oito e foi exatamente isso que o autor entregou no fim das contas.

“Uma escada para o céu” é mais uma prova do poder da escrita de John Boyne que, mesmo tendo construído uma obra com um dos personagens mais detestáveis que eu já tive o desprazer de conhecer, faz com que seja quase que impossível desviar os olhos da história que está sendo contada, exceto pelas vezes em que a necessidade irrefreável de enxugar os olhos embaçados por lágrimas se faz presente, a habilidade do autor de contar uma história e provocar, incomodar e chocar o leitor se prova mais uma vez aqui, não de forma tão poderosa como já fez em “As fúrias invisíveis do coração”, mas ainda assim alcança algo que autores como seu personagem Maurice Swift nunca irão conseguir realizar.

Quantos cafés “Uma escada para o céu” merece?

2 comentários sobre “LIVRO: UMA ESCADA PARA O CÉU – JOHN BOYNE

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