LIVRO: IF IT BLEEDS – STEPHEN KING

“If It Bleeds” é o mais recente lançamento do autor Stephen King, lançado em Abril, ainda sem uma data definida de lançamento por aqui, a coletânea reúne quatro novelas inéditas, sendo elas “Mr. Harrigan’s Phone”, “The Life of Chuck”, “If It Bleeds” e “Rat”.

Você já deve saber que Stephen King é o meu autor favorito da vida e, mesmo tendo diversos livros dele ainda não lidos na estante, decidi passar “If It Bleeds” na frente por dois motivos: por ser um livro de histórias mais curtas, pois estou num momento de não conseguir me concentrar muito em leituras, e pelo fato de uma das histórias ser protagonizada por Holly Gibney, uma personagem que eu amo e que já apareceu em obras como “Mr. Mercedes”, “Achados e Perdidos”, “Último Turno” e “Outsider”. Como o livro é composto por apenas quatro histórias, vou falar um pouquinho sobre cada uma delas.

“Mr. Harrigan’s Phone” é a novela que inicia o livro, na história conhecemos Craig, um garoto que possui uma grande facilidade com a leitura, essa habilidade chama a atenção do padre da cidadezinha de Harlow’s que o convida para ler passagens bíblicas nos cultos dominicais.

É por intermédio desses cultos que o bilionário aposentado Sr. Harrigan conhece Craig e o convida para trabalhar para ele lendo livros e regando algumas plantas, por esse trabalho ele recebe um salário e um cartão com uma raspadinha de loteria em datas comemorativas. O garoto aceita o trabalho, mesmo diante da implicância de seu pai quanto ao valor do salário e também o receio de deixar que o filho vá todas as tardes visitar um homem que vive praticamente sozinho, o que é uma preocupação bem verossímil.

Após um longo período trabalhando para o Sr. Harrigan, duas coisas boas acontecem, seu pai junta suas economias e presenteia o garoto com o tão sonhado Iphone e a raspadinha desse ano acaba sendo contemplada com um prêmio de 3 mil dólares. Como ele e seu pai são pessoas simples e não sabem ao certo como administrar o dinheiro recebido na loteria, o garoto pede ajuda ao Sr. Harrigan para investir o prêmio em ações, utilizando para isso informações que podem ser conferidas em tempo real pelo Iphone.

O Sr. Harrigan mostra-se inicialmente cético quanto à tecnologia, mas aos poucos se acostuma e acaba até ganhando seu próprio Iphone, um presente de Craig em agradecimento. Já debilitado, chagamos à uma parte da história onde o Sr. Harrigan acaba falecendo, Craig sofre muito com a morte do patrão e amigo e como uma forma de carinho, decide colocar o Iphone do amigo dentro do paletó, assim, o Sr. Harrigan é enterrado junto com seu Iphone.

A morte do Sr. Harrigan não é um grande spoiler da história, pois é a partir dela que as coisas começam a andar na trama. Eventualmente, Craig liga para o número do Sr. Harrigan para desabafar sobre acontecimentos da sua vida, ele desabafa com a secretária eletrônica por mais que isso seja estranho por diversos motivos, sendo eles o mais óbvio de estar ligando e desabafando com o celular de uma pessoa morta, ou também o fato do celular continuar funcionando. Aos poucos, Craig nota que esses desabafos geram consequências estranhas para a sua vida.

Com um clima de mistério crescente, vamos acompanhando a vida de Craig em várias fases, as ligações para o celular do Sr. Harrigan e as consequências aparentemente decorridas dessas ligações. Esse clima e a tensão construída aos poucos fazem com que o leitor não largue a história sedento por respostas. Infelizmente a novela não me agradou tanto, achei a história em si bem mediana e faltou um encerramento melhor, ele termina de forma que me questionei se era só aquilo mesmo e isso é um pouco decepcionante por tratar-se da história que abre o livro.

A coletânea segue com o emocional “The Life of Chuck”, uma novela dividida em três atos e narra a vida de um homem de trás para frente. Conhecemos Chuck primeiramente em seu leito de morte e quando chegamos ao final da história, que na verdade é o começo do problema, entendemos os motivos pelos quais o autor decidiu montar a história dessa forma.

O clima da terceira parte da novela é muito intrigante, o mundo está em seus momentos finais, catástrofes naturais estão dizimando continentes, houve um grande black out na tecnologia e a internet está prestes a deixar de existir, tudo nessa primeira parte, que na verdade é o fim. Enquanto acompanhamos a vida das pessoas em meio ao fim dos tempos, nos vemos intrigados com um certo detalhe que também intriga os personagens da trama: um grande outdoor e propagandas em mídias possíveis  com a foto de um homem e agradecendo seus serviços por 39 anos.

Assim como os personagens, nos questionamos sobre quem seria esse homem e os motivos pelos quais ele é considerado tão importante para ter tantas mídias o agradecendo. Na segunda parte da novela somos apresentados à vida desse homem por meio de lembranças de outras pessoas, esses momentos são bem tocantes e me lembrou um pouco do clima de “Elevation”, uma obra bem recente do autor que não agradou muito os fãs, mas me pegou de jeito.

Na última parte da novela, que na verdade é o início da história de Chuck, descobrimos os motivos pelos quais o autor decidiu construir a história em ordem reversa e, pelo menos ao meu gosto, foi uma ideia sensacional. A novela fala sobre os universos contidos nas pessoas, na complexidade do ser e da memória. É inicialmente uma novela intrigante que se transforma em um texto tocante que deságua em reflexões bem pessoais, eu teria aberto a coletânea com esse conto.

A novela que dá nome à antologia é justamente a melhor história do livro, muito por conta de Holly Gibney, uma personagem que surgiu como coadjuvante na série “Mr. Mercedes” e foi construindo seu lugar no kingverso de forma natural e com um empurrãozinho do amor que os leitores sentiram por ela. É importante dizer que essa novela se passa após os eventos do romance policial “The Outsider”, dessa forma caso você seja spoiler-fóbico, leia “If It Bleeds” apenas após concluir a leitura de “The Outsider”.

Na trama, enquanto investiga o desaparecimento de um cachorro, a detetive particular Holly Gibney se vê presa ao noticiário quando a programação de seu programa favorito é interrompido por uma notícia aterradora. Uma bomba explodiu na Albert Macready Middle School. Apesar da notícia extremamente chocante, a atenção de Holly é atraída para uma outra direção.

Há algo de errado com o repórter noturno que noticiou a tragédia, ele foi o primeiro correspondente que chegou à cena da tragédia e o instinto de detetive de Holly diz que não foi apenas uma coincidência. Impelida pelo instinto e pelo tédio da investigação em curso, Holly decide investigar o repórter e acaba se chocando com similaridades com um outro caso que trabalhou.

Dessa forma, Holly conduz o leitor à uma investigação perigosa, cujo alvo certamente não é apenas um homem comum. Além de ter que investigar esse seu instinto, a detetive escolhe não envolver seus sócios ou seus amigos nesse caso, pois sabe que o perigo que está correndo pode ser definitivo, ela já experimentou a perda de pessoas próximas mais de uma vez e não sabe se sua frágil saúde mental suportaria um novo golpe. Como se não fosse o bastante enfrentar esse perigo sozinha, ela também precisará voltar para a casa da mãe para auxiliá-la com um tio que está doente e, caso você não tenha lido “Mr. Mercedes”, apenas saiba que a relação de Holly com sua mãe não é uma das mais fáceis e saudáveis.

Eu não estou dizendo que “The Outsider” não foi um grande passo para a personagem, longe disso, mas eu senti que essa novela consolidou de vez a personagem em uma das minhas personagens femininas mais queridas do autor. Holly é uma mulher que luta constantemente com monstros, sejam eles internos ou externos e apesar de todas as adversidades, perdas e pessoas duvidando de sua capacidade, ela sempre supera tudo com seu jeito pecúliar. Eu não poderia deixar de citar nesses meus comentários sobre essa novela que o autor aborda aqui uma crítica muito válida à mídia e sua relação de parasitismo com eventos catastróficos, inclusive, o nome do conto é uma menção à um ditado norte-americano para se referir à esse tipo de notícia e a forma com a qual elas são noticiadas, o ditado é “If it bleeds…it leads”.

“Rat” encerra a antologia com alguns clichês das histórias do autor, temos um personagem central que trabalha com a escrita, febre da cabana e elementos sobrenaturais muito loucos que te fazem questionar o que o autor usou para escrever aquilo.

Na trama, acompanhamos Drew Larson, um autor com alguns contos curtos publicados e professor universitário que leciona escrita criativa. O maior desejo de Drew é conseguir escrever um romance, ele já tentou escrever histórias mais longas, mas nunca deu muito certo e ele não quer e sabe que seria bem mais difícil ele ser reconhecido no meio literário apenas com poucos contos publicados.

Durante um deslocamento de carro, Drew tem uma ideia incrível que renderia um romance sem sombra de dúvidas e, dessa vez, ele sabe que vai conseguir ir até o final, pois a história parece ter vindo inteira em sua cabeça, como se ele tivesse feito um download do reino criativo dos autores. Quando conta a novidade para sua esposa e pede que ela lhe permita passar um período de tempo na cabana isolada de seu falecido pai para se concentrar e conseguir pelo menos escrever o início da história, ela se mostra bem preocupada.

A preocupação de sua esposa não é infundada, da última vez que Drew mergulhou de cabeça em um projeto de escrita longo ele acabou tendo um surto psicótico por não conseguir avançar na trama e acabou até mesmo provocando um incêndio em casa. Porém, mesmo relutante, ela decide dar um voto de confiança ao marido que parte para o isolamento afim de realizar seu maior sonho, escrever um romance.

Na viagem para a cabana, Drew para em um posto de conveniência e acaba por tocar na mão de um homem que está aparentemente gripado. Ele só se dá conta de que fez merda ao fazer aquilo e não se preocupar com a higienização de suas mãos quando sua história começa a deslanchar e ele começa a adoecer. Como a maioria das histórias envolvendo escritores como personagens centrais, problemas começam a aparecer para dificultar a vida de Drew, além da estranha gripe, uma tempestade tropical se aproxima, ameaçando a integridade da cabana, de sua própria vida e de sua família, mas o escritor não cede, mesmo após as constantes tentativas da esposa de fazer com que ele volte para casa antes que a tempestade avance.

Acometido por febre, alucinações e ainda assim firme em seu propósito, Drew se vê preso quando a tempestade finalmente o alcança e um misterioso rato que chega até a cabana torna a sua realidade ali dentro e pós-isolamento um tanto quanto pecúliar.

Os pontos que mais me agradaram na história foram os dilemas que o autor apresenta sobre o ofício da escrita, todos os obstáculos que ele e diversos autores certamente esbarram quando estão construindo uma história e como esses obstáculos podem ser enlouquecedores, além disso, eu gostei demais do conflito moral que ele apresenta ao Drew no final da novela, um conflito que nos faz refletir até onde as pessoas estão verdadeiramente dispostas à ir para alcançar seus sonhos. Essa novela me fez lembrar de um conto do autor que eu gosto muito e que super indico que você leia, procure pelo conto “Ex Fumantes Ltda.” presente na antologia “Sombras da Noite”.

“If It Bleeds” é uma coletânea cheia de altos e baixos, ela inicia com uma história que, apesar de bonita, não tem um ápice, passa para uma outra história emocional que fisga o leitor e gera reflexões, sobe o nível com uma trama policial sobrenatural guiada por uma das personagens mais interessantes do autor nos últimos tempos e se encerra com uma novela que é o suco de todos os clichês do autor, eu não tomaria esse suco, mas ele é bem feito!

A sensação ao finalizar a leitura casou bastante com o que o autor disse em uma live recente, ele tinha a novela “If It Bleeds” pronta e queria publicar, mas achava injusto publicar apenas uma história curta, então decidiu pegar mais alguns contos que já estavam terminados, revisitar, finalizar e inserir em um encadernado, conseguiu entender meu ponto?

Quantos cafés “If It Bleeds” merece?

2 comentários sobre “LIVRO: IF IT BLEEDS – STEPHEN KING

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