JULHO NACIONAL: MULHERES VS. MONSTROS – ORGANIZADO POR CLÁUDIA LEMES

“Mulheres vs. Monstros” é uma coletânea de artigos e contos de ficção especulativa idealizada, organizada e editada pela autora Cláudia Lemes. Publicada de forma independente e viabilizada por uma campanha de financiamento coletivo, a obra é descrita como uma jornada fantástica por novas histórias de mulheres contra monstros, inspiradas na cultura pop, em clássicos da literatura, HQs, séries da Netflix, filmes de horror cult e até mitologia brasileira e grega.

Sinopse: Ao redor da fogueira, sussurradas entre quatro paredes, nas páginas de livros, nas telas do cinema, emolduradas por quadrinhos e através de streaming para smartTVs; as histórias de mulheres enfrentando monstros sobreviveram porque reverberam no íntimo de todas as almas femininas que conhecem a luta. O monstro vem em muitas formas; o próprio pai, doenças, pobreza, violência, marido, dogma, traição, acidentes, fome, depressão. O monstro pode ser um demônio, um deus, uma criatura de outro planeta ou o próprio lado obscuro da alma dela. Mas a mulher luta até o fim.

Eu adoro pesquisar sobre obras em processo de financiamento coletivo e foi em uma dessas minhas pesquisas que encontrei a campanha de “Mulheres vs. Monstros” e não precisei pensar duas vezes para contribuir e torcer para que o projeto fosse financiado. Quem me conhece sabe que o terror é o meu gênero favorito e eu sempre tive um apreço especial por personagens femininas fortes sendo retratadas nesse tipo de obra, seja nos livros, filmes ou séries de TV. Eu sou uma cria do início dos anos 90, na minha infância e adolescência assisti diversos filmes de slasher e sempre amei o gênero, sem vergonha alguma de deixar isso claro, eu adorava meus finais de semana assistindo as VHS’s que meu pai tinha dos trocentos filmes de “A Hora do Pesadelo”, por exemplo.

Quando vi que a ideia da coletânea era reunir autores para dar suas visões sobre embates entre mulheres e monstros tendo como inspirações elementos dos quais eu gosto muito, foi inevitável contar os dias para que eu tivesse esse projeto em mãos, esse dia chegou, a leitura foi incrível e hoje vou contar um pouquinho para vocês. Essa é uma coletânea diferente, ela é composta por 11 artigos e 11 contos; os artigos funcionam como uma apresentação para os contos onde os autores explicam suas referências, influências e o que desejam transmitir com suas histórias.

Fábio Fernandes escreveu o artigo “Só as mulheres são fortes de verdade” e o conto “Cavalo de fogo”, Flávio Karras escreveu “Monstros, monstros e monstros” e “Estalo”, Jana Bianchi é responsável por “Os verdadeiros monstros” e “Uns trecos bizarros”, seguida por Rodrigo Ortiz Vinholo com “Freddy, Nancy e a vítima desacreditada” e “O Perseguidor”, Oscar Nestarez escreveu o artigo “Shirley Jackson, a guardiã do enigma” e o conto “Nellie vai para casa”, Larissa Brasil escreveu “A lenda do Arranca-línguas” e “A noite mais longa do ano”, Denise Flaibam escreveu o artigo “Quem conta sua história, Medusa?” e o conto “Protocolo Atena”, na reta final da antologia temos o artigo “Barbarella e Vampirella: Musas inspiradoras” e o conto “Mãe” de Duda Falcão, “O monstro da lagoa negra” e “Os filhos do boto” de Tito Prates, o artigo “Mulheres que sonham com monstros” e o conto “Um Invasor” de Cláudia Lemes, finalizando a antologia temos o artigo “Filhas indesejadas e pais cruéis” e o conto “Wildwood” da autora Clara Madrigano.

Como a coletânea é composta por vinte e dois textos, não vou conseguir falar sobre cada uma das histórias individualmente, ou esse post ficaria muito grande, sendo assim, vou falar sobre as minhas favoritas e mencionar as demais de forma mais breve.

“Uns trecos bizarros” é o conto de Jana Bianchi (“Lobo de Rua” e “), a proposta da autora era falar sobre dois tipos de monstros, o real e o ficcional e para isso utilizou como inspiração a série Stranger Things, uma série que aborda dois tipos de monstros, homens que praticam experiências com seres humanos e monstros no sentido mais sobrenatural da coisa.

Tendo esses dois monstros e a série como base, a autora conseguiu criar uma história totalmente sua, com muitas características intrínsecas à sua escrita, como por exemplo contextualizar toda a trama em um ambiente bem brasileiro. É em junho, durante uma festa junina que um grupo de crianças terá que lidar com algumas situações que mudarão as suas vidas para sempre, o conto tem um formato quase que de roteiro de filme de Sessão da Tarde, com direito à cenas hilárias, personagens extremamente cativantes, representatividade homo afetiva, um vilão PODRE e muita aventura. O ponto alto do conto da Jana, na minha modesta opinião, foi a forma que ela transmutou toda a ideia original em algo totalmente seu, se utilizando de um conceito extremamente monstruoso, o fanatismo religioso,  para criar os seus dois monstros extremamente reais e possíveis.

Divulgação da campanha de financiamento coletivo

O autor Rodrigo Ortiz Vinholo me ganhou já em seu artigo “Freddy, Nancy e a vítima desacreditada”, onde disseca “A hora do pesadelo” mostrando o quanto esses filmes falavam sobre o descrédito que toda a vítima de abuso sofre.

Em seu conto “O Perseguidor”, o autor se utiliza da sensação terrível que Nancy tinha de não poder dormir, pois o monstro estava sempre à espreita em lugares inesperados para dar o bote; dessa forma ele constrói uma narrativa onde uma mulher sofre com a possibilidade de qualquer um ser O Perseguidor, essa entidade toma corpos, pode assumir a forma de qualquer pessoa para pegar a vítima em uma situação de vulnerabilidade ou desatenção. Essa metáfora escolhida pelo autor diz respeito à sensação de que todo homem pode ser um abusador em potencial, uma loteria que as mulheres são forçadas a jogar todos os dias torcendo para que nunca sejam contempladas, esse conto faz com que o leitor sinta na pele pelo menos 1% de tudo que uma mulher deve sentir, agora pense nessa sensação e imagine como deve ser criar coragem para apontar o monstro e ser descreditado por pessoas que deveriam te defender dele…pesado né? Infelizmente essa é a realidade de diversas vítimas de abuso, o benefício da dúvida é sempre dado ao agressor.

Divulgação da campanha de financiamento coletivo

“Protocolo Atena” é o conto de Denise Flaibam, que se utiliza da história de Medusa que não costuma ser contada, como reflete em seu artigo “Quem conta sua história, Medusa?”, para falar sobre o abuso que as mulheres sofrem em suas relações de trabalho.

Na trama, Alexis é uma pesquisadora que tem a oportunidade de trabalhar em um laboratório em Górgona catalogando a vida selvagem daquele lugar, ela é muito grata à doutora Amari pela oportunidade de viajar até Górgona e realizar seus estudos, essa gratidão misturada ao medo de decepcionar a tutora e ver seu sonho fracassar faz com que a pesquisadora entre em pânico quando uma falha ocorre na instalação e o doutor Perseu, responsável pela concepção da instalação, aparece. Ao contrário do que ela imaginava, Perseu não aparece lhe julgando ou lhe atirando pedras pela sua falha, pelo contrário, ele propõe facilitar sua pesquisa, porém, em troca, ela precisará ajudá-lo a reconquistar o trabalho de sua vida pelo qual supostamente foi descreditado, a ajuda implicaria em trair a confiança de Amari. Com toda a sua covardia e em ordem de manter seu prestígio, Perseu “terceiriza” a função monstruosa, jogando uma mulher contra outra para abrir espaço suficiente para acomodar sua soberba, crente que ele é quem segura o lápis que tece a narrativa de Alexis.

Divulgação da campanha de financiamento coletivo

“Um Invasor” da autora Cláudia Lemes (“Eu vejo Kate” e “A segunda morte de Suellen Rocha”) é um conto inspirado no embate entre Michael Myers e Laurie Stroder, personagens do filme “Halloween”, uma babá no lugar e dia errados, uma sobrevivente traumatizada e final girls. A junção desses elementos por si só já fazem meu coração bater mais forte, pois são basicamente elementos intrínsecos à maior parte dos filmes slasher que eu assisti por um bom período da minha vida e continuo gostando muito.

Na trama, uma garota simples trabalha ocasionalmente como babá para as famílias da sua região. Em uma dessas noites de trabalho, ela se diverte com as duas crianças que estão sob seus cuidados quando começa a notar barulhos estranhos, vultos e sinais pela casa de que talvez eles não estejam sozinhos. Munida de sua coragem, seu instinto de sobrevivência, de manter as crianças seguras e uma faca, ela desbrava a casa em busca do invasor, quando percebe que há algo de familiar nessa presença. Eu amei o que a autora fez aqui, ela subverte totalmente as expectativas do leitor dando uma outra função narrativa para a personagem principal no desfecho do conto, de potencial vítima de um invasor, ela se torna o pior pesadelo que esse tipo de monstro poderia encontrar, alguém disposto a ouvir, munido de empatia e com humanidade o suficiente para fazer algo à respeito.

Divulgação da campanha de financiamento coletivo

“Wildwood” de Clara Madrigano (“Dodge” e “As Boas Damas”) é um conto inspirado na história de duas mulheres que tiveram pais cruéis, Elizabeth I e Atena. Com essa premissa, Clara constrói Wildwood, uma comunidade liderada por Karl Winnick, um homem possessivo, controlador, machista e absolutamente egocêntrico.

Eliza é filha de Karl, uma garota fascinada pelo pai; fascinada ao ponto de incorporar alguns de seus traços afim de ser alguém tão respeitada dentro da comunidade. Contudo, a jovem aos poucos descobre que o respeito que a comunidade nutre pelo seu pai cresceu adubado pelo medo e que a “comunidade” que ele construiu é tão sensível quanto o seu ego. Eu já li outras histórias da Clara e essa é sem dúvidas a minha favorita, a autora constrói a trama com um suspense crescente, todas as aparições de Karl eram tão tensas, pela volatilidade do personagem, que podiam ser comparadas à sensação, presumo eu, de tirar o clip de uma granada e se dar conta de que talvez o segundo certo de ter arremessado já tenha passado. O conto me remeteu à histórias de seitas e cultos pagãos, a personalidade do monstro de Eliza com toda a certeza foi pautada em extremo machismo e egocentrismo, tais como eram os monstros que Elizabeth I e Atena tiveram em suas vidas, esse conto encerra a antologia com chave de ouro.

Divulgação da campanha de financiamento coletivo

Embora os contos supracitados tenham sido meus favoritos, isso não significa de forma alguma que as outras histórias são ruins ou menores que as citadas. Fábio Fernandes com seu conto “Cavalo de Fogo” fala sobre a pressão que as mulheres sofrem em relação à maternidade e também aborda a violência obstétrica, já Flávio Karras reflete sobre abuso físico, psicológico e as consequências desses abusos para a saúde mental a vítima, em “Nellie vai para casa” o autor Oscar Nestarez também fala sobre aspectos psicológicos ao abordar uma relação conflituosa entre mãe e filha, já Larissa Brasil aborda em seu conto “A noite mais longa do ano” a misoginia e o machismo se utilizando de uma lenda regional, assim como Tito Prates se utiliza da lenda do Boto e do Monstro da Lagoa Negra em seu conto “Os Filhos do Boto” para falar sobre abuso médico e clínico, tema extremamente recorrente nas manchetes do país e Duda Falcão por sua vez se utiliza das personagens Vampirella e Barbarella em seu conto “Mãe”, onde ele se utiliza da independência e inteligência dessas personagens, traços que sempre foram deixados de lado em prol da sexualização, para escrever seu conto.

“Mulheres vs. Monstros” é uma coletânea onde, munidos de muita criatividade, os autores dão uma resposta contundente à todos aqueles que descreditam, desmerecem e até ridicularizam os abusos, as denúncias, as reivindicações, os medos e as lutas das mulheres. Ao dar protagonismo para essas personagens e mostrar o quanto elas são fortes ao enfrentar essa gama enorme de monstros diariamente, a coletânea deixa bem claro que a fragilidade atribuída ao sexo feminino é tão absurda quanto o ego do macho que acredita que um ser tão incrível nasceu de um pedaço de sua costela apenas para atender suas necessidades e ir buscar uma cervejinha gelada no freezer.

Gostou das minhas impressões sobre o livro? Você pode adquirir a coletânea “Mulheres vs. Monstros” no site da autora Cláudia Lemes, também super indico a resenha do Rodrigo do canal Rodrigo e os Livros sobre a antologia, corre lá!

Quantos cafés “Mulheres vs. Monstros” merecem?

3 comentários sobre “JULHO NACIONAL: MULHERES VS. MONSTROS – ORGANIZADO POR CLÁUDIA LEMES

  1. RODRIGO LUCAS disse:

    Que resenha foda!!! Tanto autor bom por aí, essa coletânea mostra a capacidade e criatividade dos autores nacionais em usar temas universais e trazer pro nosso território.

    Curtido por 1 pessoa

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