JULHO NACIONAL: CLORO – ALEXANDRE VIDAL PORTO

“Cloro” é um romance escrito pelo autor paulista Alexandre Vidal Porto e publicado pela editora Companhia das Letras em 2018. Diplomata e mestre em direito pela Universidade Harvard, Alexandre já lançou outros títulos como “Sérgio Y. vai à América” (2014) e “Matias na cidade” (2005).

Na trama, Constantino é um defunto autor. No limbo em que se encontra, ele rememora fatos decisivos de sua vida, até a morte inesperada, aos cinquenta anos de idade. Advogado bem estabelecido em São Paulo, aprendeu na infância que “ser bicha não era bom”. Sempre escondeu seu desejo.

Quando pequeno, Constantino foi chamado de bicha por um colega de classe, essa nomenclatura ecoou em seu ser desde então e ele lutou com todas as suas forças para não se deixar definir por aquelas cinco letras. Rapidamente, ele entendeu como deveria agir para se afastar da definição que lhe foi atribuída, fazendo amizade com o tal colega de classe e iniciando um namoro com uma garota.

Seguindo o papel de heterossexual que criou para si, Constantino casou-se com Débora e como fruto desse relacionamento tiveram dois filhos. Ele nunca chegou a ser um pai incrível, se refugiou muito no trabalho, sempre ocupado, tendo de viajar para outras cidades para trabalhar em seus casos advocatícios, como marido ele sempre tentava cumprir seu papel, mesmo que de forma extremamente mecânica, superficial e ensaiada, ele verdadeiramente seguia um roteiro de um personagem que ele queria ser.

Porém, um acontecimento trágico acaba por colocar um fim no frágil equilíbrio que Constantino mantinha. A morte faz com que ele confronte sua vida e, todos os caminhos que se apresentam a partir do acontecimento trágico, levam o advogado à auto-descoberta.

É engraçado: eu não queria ostracismo, mas acabei ostracizando minha própria natureza, porque eu tinha medo dela. As pessoas se lembrarão de mim, terão uma imagem de mim, só que não serei eu. Será o depois de mim.

Constantino aceita participar de um projeto que o leva a viajar mais e durante essas viagens começa a encontrar-se com homens se utilizando de aplicativos de relacionamento, é assim que apaixona-se por Emílio, um diplomata que conhece em Brasília.

Somos apresentados à vários momentos da vida do advogado por meio de memórias que ele reúne para apresentar sua defesa caso trombe com algum ser maior no limbo em que se encontra, só depois de morto que ele consegue dar voz ao seu sentimento, falar sobre suas relações homossexuais e sobre o conflito entre o papel de decidiu desempenhar e a pessoa que ele realmente era.

O autor em certo momento do livro nos apresenta o ponto de vista de familiares e amigos sobre a vida de Constantino e essas passagens são bem interessantes por diversos motivos, o leitor tem acesso à um dialogo, que caso tivesse sido exercido, poderia ter tornado a vida de todos mais leve.

Foi a morte que me libertou.

É bem difícil ler “Cloro” sem fazer certos julgamentos, a história me deixou em conflito em diversos momentos, Constantino optou por uma vida totalmente contrária aquilo que ele era em essência, talvez por medo, talvez por covardia…e pagou o preço ao final de sua vida, descobrindo um amor tardiamente e tendo suas escolhas prévias, barreiras e todo o roteiro que adotou para si, como impeditivos para aproveitar esse amor de forma plena.

Novamente, talvez por medo, talvez por covardia, ou ainda talvez pela impossibilidade psicológica de se livrar da gaiola que ele mesmo forjou… Eu particularmente não gosto de me sentir nesse papel de julgar um personagem que representa tantas pessoas em situação semelhante, pois não há resposta pronta ou fácil onde o simples fato de ser quem você é já é um ato de coragem cada vez que você levanta da cama pela manhã, mas também não me furto ao dizer o quão triste e covarde é colocar outras pessoas no meio das mentiras que constituem um papel que se cria em busca de adequação.

“Cloro” de Alexandre Vidal Porto é um romance que te faz questionar e ao mesmo tempo te faz tentar entender os motivos que levam uma pessoa a anular completamente a sua felicidade e a sua vida em nome de um desconforto social, em nome de uma crença, do medo ou da pena de ter que pagar o preço de ser excluído socialmente e afetivamente de diversas formas, simplesmente por ser quem você é. O ideal seria mesmo que todos nós pudéssemos viver confortáveis em nossas próprias peles, que ninguém tivesse que se anular para ser aceito ou viver com doses homeopáticas eventuais de felicidade e amor em encontros furtivos.

Gostou das minhas impressões? “Cloro” de Alexandre Vidal Porto está disponível na Amazon em formato físico e digital.

Quantos cafés “Cloro” merece?

Um comentário sobre “JULHO NACIONAL: CLORO – ALEXANDRE VIDAL PORTO

  1. RODRIGO LUCAS disse:

    POIS EU JULGO SIIIIMMMMMM 😂😂😂😂

    Cada um tem seu momento de aceitação e de viver plenamente com sua verdade, mas optar pelos privilégios de uma vida heteronormativa é algo que se inicia por medo e insegurança e se mantém por falta de honestidade e hipocrisia.

    O final desse livro é TUDOOOOOO

    Curtido por 1 pessoa

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