JULHO NACIONAL: VISLUMBRES DE UM FUTURO AMARGO

“Vislumbres de um futuro amargo” é uma antologia de ficção científica que foi idealizada por Gabriela Colicigno e Damaris Barradas durante discussões para o projeto de TCC delas do MBA em Book Publishing. O livro foi viabilizado por uma campanha no Catarse e foi lançado pelo selo editorial da Agência Magh (“Histórias mais ou menos assustadoras”, “Toda Magia” e “A Bicicleta”) e foram convidados para o projeto seis autores e autoras nacionais, assim como seis ilustradores e ilustradoras para darem uma cara a cada um dos contos.

A premissa da coletânea foi elaborada tendo como base algumas previsões de Stephen Hawking para o futuro da humanidade, mas cada autor foi livre para escolher com qual ou quais trabalhar, assim as histórias abordam desde explorações espaciais até inteligências artificiais.

Anna Martino abre a antologia com o conto “Antônio do Outro Continente”. Na trama conhecemos Antônio, um jovem nascido em uma colônia espacial agrícola sediada em um satélite artificial que não sente a mínima vontade de sair dali e morar na Terra, afinal, ele reconhece o satélite artificial como lar.

Parte de seu salário é destinado à sua família na Terra, uma família que não lhe é familiar em um lugar que também não é. Antônio se apaixona por Izar, uma jovem que de forma alguma quer se ver presa em uma colônia espacial agrícola em um satélite artificial, ela quer desbravar o universo, conhecer a Terra.

Quando a notícia de que sua prima quer enviar seu primo para trabalhar na colônia chega até Antônio, ele precisará ir à Terra para entender os motivos dela, com apoio e entusiasmo de Izar eles partem para uma viagem que vai lhes ensinar algumas coisas sobre os terráqueos. Eu gostei bastante desse conto por ele abordar questões familiares, é um drama familiar que mostra que alguns parentes podem ser indigestos ao ponto de você sentir embrulho no estômago mesmo à planetas de distância.

Lady Sybylla segue a antologia com seu conto “Corra, Alícia, Corra”. Na história, conhecemos a jovem Alícia em meio à uma fuga, aquilo que Bianca chama de alojamentos, passou a soar como uma prisão há muito tempo e ela precisa encontrar uma forma de escapar dali, de realizar seu sonho simples de ver o céu, conhecer a superfície do planeta. Presa em uma instalação subterrânea, Alícia precisa correr de seus perseguidores e encontrar uma saída, mas acaba descobrindo que a realidade não é bem aquilo que ela imaginou.

Esse conto é bem curtinho e muito ágil, eu me peguei ofegante durante a leitura torcendo para que Alícia conseguisse desbravar aqueles labirintos da instalação subterrânea e conseguisse encontrar uma saída dali, pois toda a história que lhe contaram e fizeram acreditar cheira bem mal, não vou me alongar muito na história para não estragar a sua experiência com spoilers, mas garanto que é um conto que vai te tirar o fôlego no fim das contas.

Waldson Souza (“Oceanïc”) chega com seu afrofuturismo com o conto “Eletricidade em suas veias”, o meu conto favorito da antologia e que foi extremamente bem inserido após o conto de Lady Sybyla, que é sem dúvida um dos meus favoritos também.

Na trama, conhecemos Celestia, uma espécie de cidade construída sobre as nuvens onde residem seres que já foram humanos e mortais, mas que evoluíram para seres imortais e superiores. Como o ser humano sempre temeu o diferente, esses seres foram obrigados à se isolar em Celestia. É nesse contexto que conhecemos uma divindade de pele preta que atua em uma área da robótica, ela trabalhou durante anos um projeto que acaba de ser suspenso, porém ela acaba por se recusar à desligar ou destruir seu androide Berko e toma uma atitude arriscada.

Berko foi desenvolvido para se assemelhar ao ser humano, sua aparência é humana, seus gestos são humanos e sua pele é preta tal qual a de sua criadora, o objetivo dela era criar um androide dotado de humanidade, que entendesse e conseguisse se misturar com o ser humano sem ser percebido e a melhor forma que ela encontra para fazer isso, mesmo com seu projeto tendo sido suspenso e correndo um risco enorme de ser descoberta e punida, é enviar Berko para viver no planeta Terra com os humanos de verdade.

Assim, o conto se desenvolve com as observações da criadora sobre as diversas vidas que sua criatura passa durante o longo período que vive na Terra. Como ele é um androide, ele não envelhece, sua feição não muda, então ela precisa tomar alguns cuidados para que sua existência passe desapercebido para os humanos e para a história, que suas lembranças não sejam acessadas por ele após concluir um desses ciclos, que suas relações não coloquem em risco sua identidade.

Mas os humanos estavam se desenvolvendo tão devagar quanto meus antepassados previram. Eles ainda escravizavam uns aos outros, acreditando ter o direito de dominar seus semelhantes, criando narrativas falsas para justificar seus atos. Situação que observei se encerrar com muito custo, mas apenas para se modificar e continuar operando de outras formas.

Dessa forma, o autor nos conta uma história de evolução da sociedade humana em um texto rico, com elementos muito interessantes, questões sociais, raciais, humanas e desumanas também. A escrita do autor é dotada de sentimento, possui características intrínsecas às histórias own voice e embrulha todos esses aspectos citados em um sci-fi muito interessante, com uma construção de mundo que eu gostaria de ler mais sobre, assim como eu me senti quando li “Oceanïc”, você precisa ler Waldson Souza!

Em “Eu, algoritmo”, Lu Ain-Zaila também escreve uma história afrofuturista. Na trama, um algoritmo chamado DOGI, coloca em risco os segredos e a privacidade das pessoas. Ajia, uma mulher negra e ciberativista que pensa que os humanos temem as máquinas desnecessariamente, quando deveriam temer as intenções humanas por trás das máquinas, é notificada por DOGI.

Após ser notificada pelo algoritmo, Ajia se recusa a ceder às chantagens da inteligência artificial e assina sua sentença, a ciberativista passa a ser caçada, tendo um alerta emitido em seu nome e uma recompensa de liberdade para quem entregá-la viva e sem ferimentos para a Prefeitura da cidade, assim Ajia precisa correr, pois os cidadãos de bem já começaram a tentar derrubar sua porta aos chutes.

“Seu cabelo não é reconhecido. É impossível ajustar à métrica padrão. Troque-o.”

Ali eu morri e renasci entre lágrimas, raiva e muita vergonha. Descobri que a Era Digital é feita de pessoas e muitas delas não ligam para pessoas como eu. 

Eu nunca havia lido algo de Lu Ain-Zaila, mas já quero ler mais! O conto tem um final muito surpreendente que reforça a ideia que ela passa em toda a história, a ideia de que não é a máquina e sim os humanos responsáveis pela própria destruição, uma história de tirar o fôlego e com plot-twists de explodir a cabeça.

Chegando na reta final, temos o emocional “O pingente” de Cláudia Fusco. Eu amei demais esse conto, a história é contada pelo ponto de vista de uma inteligência artificial responsável por cuidar de uma criança humana, como se fosse uma cuidadora mesmo.

Além de cuidar da fase infantil, a IA acompanha também o desenvolvimento da criança. Como as suas mães da criança sempre estão correndo ocupadas com o trabalho, a IA acaba tornando-se uma espécie de mãe e, posteriormente, após um acidente que deixa a criança com uma cicatriz e faz com que ela seja evitada por outras crianças que a consideram feia, a IA também passa a ocupar a função de melhor amiga.

É muito interessante acompanhar toda a história e o desenvolvimento da humana pelo ponto de vista da inteligência artificial, ver ambas sendo transformadas por essa relação atípica. O conto é bem sensível e carregado de emoção, eu me surpreendi muito com o final e fiquei aliviado com o desfecho, pois as lágrimas já estavam quase escorrendo antes do último plot-twist.

A antologia se encerra com “SIA está esperando” de Roberto Fideli (“A Bicicleta”). Como eu já disse aqui em praticamente todas as minhas resenhas de contos escritos pelo autor, a escrita do Roberto me fisga pelo tom melancólico e sensível de suas histórias. Aqui não é muito diferente, mas a desesperança nessa história é ainda maior do que em todas as outras que eu li até o momento.

Uma nave de combate espacial acaba caindo em um planeta desconhecido, com uma atmosfera pouco convidativa e eventuais tempestades assustadoras durante o dia. Na tentativa de consertar a nave, os tripulantes acabam sofrendo diversos acidentes, a tripulação vai sofrendo baixas aos poucos, mas cada vez mais altas e a capitã se vê perdida e desesperada ao ver pessoas sucumbindo sob sua liderança.

SIA é a inteligência artificial da nave de combate, a história é contada sob o seu ponto de vista e observações das ações comandadas pela capitã e executadas pelos tripulantes. Quando os riscos que a atmosfera apresenta se tornam maiores, a tripulação cada vez menor e a esperança de sair dali surge baseada em um palpite de que talvez a comunicação da nave esteja sendo cortada devido à uma estrutura encontrada nesse planeta, uma missão arriscada força a capitã à desligar certos protocolos da inteligência artificial, concedendo liberdade para que ela tome algumas ações por si mesma.

Eu descreveria esse conto com uma mistura de desespero, desesperança e melancolia, as coisas dão muito errado, há enormes desvantagens em toda a missão, o clima e a atmosfera do planeta não ajudam, as pessoas começam a se desesperar e cometer atitudes impensadas, é um verdadeiro Deus-nos-acuda e é incrível a gama de sentimentos que o autor provoca no leitor com esse texto.

“Vislumbres de um futuro amargo” é uma antologia que não possui sequer uma história meia-boca e olha que isso é bem difícil de alcançar, antologias sempre tendem a ter algumas histórias que eu gosto mais, outras menos, e algumas nada, mas nessa coletânea eu gostei de absolutamente tudo.

Eu sei que poucas pessoas tem o costume de ler histórias de ficção científica por imaginarem que a leitura é difícil ou por ter pego eventualmente um livro de sci-fi mais clássico e ter ficado perdido com termos científicos, complexidade de mundo, palavras estranhas ou coisas do tipo, se você é uma dessas pessoas que tiveram uma experiência ruim com o gênero ou quer começar a ler mais coisas de sci-fi, super indico essa antologia e que fique de olho em todos esses nomes que apareceram por aqui, depois, quando você se pegar amando o gênero, volte aqui para tomarmos uma dinamite pangalática juntos.

Gostou das minha impressões sobre a antologia? “Vislumbres de um futuro amargo” está disponível na Amazon em formato digital. Compre pelo link do blog (https://amzn.to/39bqwQf) e ajude esse criador de conteúdo viciado em cafeína.

Quantos cafés “Vislumbres de um futuro amargo” merece?

2 comentários sobre “JULHO NACIONAL: VISLUMBRES DE UM FUTURO AMARGO

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