MÊS DO HORROR: APOCALIPSE SEGUNDO FAUSTO – MARCOS DEBRITO

“Apocalipse segundo Fausto” é o mais recente romance publicado pelo escritor, roteirista e cineasta brasileiro Marcos DeBrito, autor de obras como “À sombra da lua” (Rocco, 2013), “Escravo de Capela” (Faro, 2017) e “A Casa dos Pesadelos” (Faro, 2018), seu novo trabalho foi publicado pela editora Coerência em uma edição em capa dura com um projeto gráfico todo especial que é extremamente complementar à história.

— Está escrito, não só em Mateus como também no Livro de Marcos, que é por meio de prodígios que o Falso Profeta vai erguer-se nos dias de aflição. E que ele será alguém que finge ser Cristo. Virou-se novamente ao convidado. — Ninguém finge melhor do que um ator.

Na trama conhecemos Fausto Macário, um ator de 33 anos reconhecido por interpretar o papel de Jesus Cristo, o ator interpreta esse único papel há anos por ter uma fisionomia muito próxima da figura que a igreja adotou como sendo a do filho de Deus.

Somos apresentados à Fausto em sua mais recente apresentação do espetáculo “A Paixão de Cristo” que é inesperadamente interrompido por uma tempestade que acaba por encerrar a história no segundo ato do Calvário, sendo assim, pela primeira vez desde que começou a interpretar Jesus, Fausto encerra uma apresentação sem o ato da ressurreição.

Fausto se mostra preocupado com o fato de não ter conseguido interpretar o ato da ressurreição, isso nunca lhe havia ocorrido antes, e o simbolismo do ineditismo da situação quando ele possui exatamente a idade com a qual o Cordeiro foi pregado na Cruz, não aliviam a carga de desconforto que se instala no subconsciente do ator.

Seus desconfortos são tratados em sessões de terapia com uma especialista adepta ao ateísmo, pois é mais fácil e menos perigoso abrir sua alma para uma pessoa que não alimenta crenças em divindades do que para alguém que o considera um modelo perfeito de messias moderno.

Além do incômodo referente ao acontecimento mais recente, Fausto conversa muito sobre a devoção cega dos fiéis que enxergam em sua imagem uma possibilidade de contato real com o divino, apesar de gostar do seu trabalho, o ator reconhece que o peso de representar um personagem tão grande, o simples ato de ir ao supermercado pode se tornar extremamente desgastante.

Aquele tipo de pedido sempre me deixava embaraçado. A ingenuidade de quem comparava minha competência de interpretação à capacidade de operar milagres beirava a loucura, e eu não queria alimentar falsas esperanças em desesperados.

Tudo fica um pouco mais complicado quando sinais de que a profecia do apocalipse está se realizando começam a se espalhar pelo mundo. Na medida que sons atribuídos às trombetas do apocalipse são ouvidos vindos do céu e desastres passam a ocorrer, fiéis se agarram à imagem de Fausto, atribuindo a ele a imagem do Salvador que teria finalmente retornado para levar consigo para a Glória aqueles que são dignos, e deixar para trás aqueles que merecem ser consumidos pelo fogo e torturas do inferno.

Como se não bastasse a pressão que o fanatismo religioso exerce sobre sua figura, Fausto começa a notar a aparição de dois pontos escuros em sua testa que vão crescendo e tornando-se mais protuberantes na medida que pesadelos com o demônio roubam suas noites de sono. Se já era um pesadelo ter sua imagem atribuída ao Salvador, o que aconteceria em sua vida caso descobrissem o símbolo do maligno crescendo em seu crânio e as constantes ofertas do Demônio para que ele exerça a função oposta da qual estão acreditando que ele desempenhará quando o som da última trombeta soar?

Fazem alguns anos que descobri a escrita de Marcos DeBrito e acreditava que dificilmente gostaria tanto de outra obra sua quanto gostei de “Escravo de Capela”, isso não significa que as outras sejam ruins, somente que a citada era a minha favorita até então, aqui está a prova do meu engano.

Em uma obra que atravessa o leitor assim que ele decide entrar na história de Fausto, o autor fala sobre o fanatismo religioso e suas perigosas consequências. Toda a histeria coletiva provocada pela suposta chegada do apocalipse transforma a vida de todos de forma profunda, desde os fiéis que passam a atribuir qualquer acontecimento à sinais de que profecias estão sendo cumpridas, como aconteceu com algumas pessoas nessa pandemia acreditando que o vírus poderia ser uma praga apocalíptica para testar a fé, até pessoas com um psicológico mais suscetível à entrar nessas histerias coletivas, caímos aqui também no perigo das palavras que, quando repetidas por centenas de pessoas de forma constante, ganham para alguns aspectos e contornos de realidade incontestável.

“Apocalipse segundo Fausto” é um livro muito bem escrito, com alguns elementos cósmicos, o protagonista é complexo e bem construído e há cenas que te fazem duvidar da possibilidade de voltar a dormir tranquilamente. A obra é desenvolvida de forma que consegue demonstrar o quanto o fanatismo religioso e a fé cega podem ser prejudiciais, não que já não tenhamos exemplos suficientes no nosso mundo real, mas é sempre bom quando uma obra consegue captar a essência desse mal sem apelar para o didatismo ou o óbvio.

SORTEIO NO SUSTO: A primeira pessoa que me enviar as quatro referências utilizadas na ilustração do especial Mês do Horror Ano 4 via e-mail no endereço umcafecomluke@gmail.com ganhará um exemplar do livro “A Casa dos Pesadelos” do autor Marcos DeBrito.

Quantos cafés “Apocalipse segundo Fausto” merece?

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