JULHO NACIONAL: 5 ZINES DO PAULO CRUMBIM

Você sabe o que é zine/fanzine? Existem diversas definições do que é um zine, para ser mais simplista, o zine é basicamente uma história curtinha onde o artista que o cria fica responsável por todo o processo de produção, é uma ótima forma de descobrir artistas independentes e principalmente seus potenciais, pois como eu vivo dizendo aqui, o complicado é realizar o simples e zine é isso, um quadrinho simplão, com uma ideia básica, de fácil e rápida produção, poucas páginas, geralmente desenhado, tratado, montado, impresso e vendido ou distribuído pelo próprio artista.

Agora que você já sabe o que é um zine, você já ouviu falar no Paulo Crumbim? Bom, se você acompanha o blog, com certeza já conhece o trabalho dele pelos Quadrinhos A2 e pelo álbum da Graphic MSP “Penadinho: Vida”, a novidade é que do ano passado para cá, o quadrinista pegou gosto pelo formato dos zines e lançou nada menos do que 5 deles (6 se contarmos o Ugrito que foi publicado pela Ugra). Nesse post eu vou falar um pouco sobre cinco zines do Crumbim e você vai ver o quanto zines são incríveis.

Zines Coleção 1 – Lançados na CCXP 2017

Em “Terreno”, Crumbim ilustra uma reunião que ocorreu entre o apresentador e empresário Silvio Santos, um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro e diretor do Teatro Oficina Zé Celso e o ex-prefeito de São Paulo, João Dória. Essa reunião tinha por objetivo definir o que deveria ser feito com o terreno ao lado do Teatro Oficina, que é objeto de disputa entre Zé Celso e Silvio Santos há quase 40 anos. Essa reunião bizarra pode ser conferida no Youtube.

Sem dúvida alguma, o alerta que o Crumbim me fez durante a CCXP estava mais do que certo, esse trabalho é bem diferente dos outros trabalhos do artista! Eu adorei a forma com que o artista ilustrou os personagens dessa reunião bizarra, o empresário cheio da grana está devidamente vestido com um casaco cheio de $ e até mesmo sua pele é encrustada de moedas, o artista é basicamente uma representação da natureza, cheio de folhas e flores, enquanto o prefeito é a representação mais legal que eu já vi alguém fazer do Dória, um lego engomadinho que solta palavras em inglês durante o seu discurso.

“Terreno” é um trabalho muito importante e retrata muito bem certos aspectos da política e questões de dinheiro e poder, essa reunião tem aquele tom de brincadeira característico que não é engraçado para aquele que está sendo alvo da piada e chega a ser bizarro saber que esse cabo de guerra de poder dura a tanto tempo. São Paulo precisa sim de mais áreas livres, de verde e espaços culturais, pois, empreendimentos financeiros, comércio e hotéis já temos em quantidades mais que suficientes.

“Cambria” é um zine inspirado na “Revolta de Guariba”, a greve que mudou a vida dos Bóias-frias no Brasil. Cansados com as condições de trabalho na colheita da safra de cana, os Bóias-frias decidiram fazer uma greve para denunciar, acabar com a escravidão velada e reclamar direitos para a classe.

O trabalho não tinha carteira assinada, os trabalhadores dormiam em alojamentos improvisados, produtos para higiene, alimentação, roupas e qualquer coisa fornecida eram cobradas e muitas das vezes quando um Bóia-fria decidia abandonar o trabalho, era obrigado a retornar, pois os seus gastos eram apresentados como maiores do que o valor que o seu serviço valia, ganhando um status de devedor com seu chefe.

Não haviam equipamentos de segurança e prevenção de acidentes de trabalho, roupas apropriadas ou alimentação regular, além disso, os trabalhadores eram obrigados a conviver com as cinzas da palha de cana que exigiam que parte do rosto dos trabalhadores ficassem cobertos, essa ação era a única forma precária que eles tinham de minimizar os problemas respiratórios que poderiam adquirir com tanta poluição.

Crumbim traça aqui um paralelo entre o trabalho manual e o trabalho da maquina colocando cada coisa em seu lugar. A ilustração ganha um certo ar de histórias de ficção científica espaciais, deixando mais claro o já evidente pensamento de irrealidade diante de uma situação tão triste vivida por muitos brasileiros naquela época. Mais uma vez temos aqui o homem colocando o lucro na frente da humanidade, como acontece também em “Terreno”.

“.exe” é o zine que encerra a primeira coleção (cinta amarela) e a ideia para criar esse trabalho surgiu de uma inquietação do artista durante a troca de prefeito de São Paulo em 2017 e um vídeo de Dö Mc, onde se vê uma colagem de Paulo Freire dizendo “eu não aceito, por exemplo, que expressões como ‘é uma pena que haja tantos brasileiros e tantas brasileiras morrendo de fome, mas afinal, a realidade é essa mesma’. Não! Eu recuso como falsa, como ideológica essa afirmação . Nenhuma realidade é assim mesmo, toda realidade está ai submetida à possibilidade de nossa intervenção nela.”

Tendo isso em mente, Crumbim distorce a realidade em “.exe” e mostra que qualquer um pode intervir e trazer mudanças, essa coisa de “é assim e pronto” é só mais um papo pra te fazer ser mais um acomodado que só fica sentado pedindo mudança, reclamando das coisas, mas sem mover um dedo em direção da ação.

Zines Coleção 2 – Lançados durante a FIQ 2018

“Sem mim” surgiu da necessidade do artista de produzir poesia a partir de matérias publicadas em jornais, para isso ele isolou uma reportagem, desmontou o texto, recortou palavras, separou e estabeleceu uma nova conexão entre elas, distanciando sua criação do sentido original dessas reportagens. Outra coisa que também inspirou o artista foram: a militarização do Rio de Janeiro, os assassinatos de Marielle Franco, Anderson Gomes, Carlos Alexandre Pereira e cinco jovens ligados ao rap em Maricá, Niterói.

A mensagem do zine é bem clara, resistência, desde o personagem quebrando um muro para abrir discussões, até a representação de uma líder sendo alvejada por projéteis oriundos de uma bola azul de 27 estrelas com a frase Ordem e Progresso gravada nela. “Sem mim” é sem dúvida alguma mais um trabalho poderosíssimo do Crumbim.

Por fim, temos “Um Longo e Surrado Vestido de Vidro”, inspirado na tragédia no prédio Wilton Paes de Almeida aqui em São Paulo, no Largo do Paissandu, na madrugada de 1 de maio de 2018. O prédio que estava abandonado e ocupado por moradores desabou após sofrer um enorme incêndio. Entre crianças e adultos, 7 mortes foram registradas. Aqui Crumbim retrata o descaso, exemplificando isso com as selfies tragédia, a apatia das pessoas em meio à uma tragédia e a ignorância daqueles que preferem não ver, o zine é muito poético e forte, imagino que qualquer um que leia vá se sentir emocionado, mas com toda a certeza o baque é maior para quem mora aqui em São Paulo, toda a poesia aqui é carregada de uma mensagem bem forte de uma realidade bem triste.

Os melhores trabalhos no campo da arte sempre surgiram da inquietação, insatisfação ou sofrimento, pois são esses os momentos que geram mais questionamentos internos, externos e coletivos. Com seus zines, Crumbim externiza todos os seus questionamentos, inquietações e insatisfações internas gerando empatia suficiente para que esse sentimento alcance o coletivo. Esse tipo de material deveria ser mais difundido no Brasil, pois o conteúdo exposto nesses pequenos trabalhos é absurdamente relevante e necessário; infelizmente todos esses trabalhos incríveis foram feitos em tiragens de apenas 200 unidades e já esgotaram, porém, indico muito que fiquem ligados no site oficial do Paulo e da Cristina Eiko para conferir futuros lançamentos.

Grande abraço, até o próximo café!

4 comentários sobre “JULHO NACIONAL: 5 ZINES DO PAULO CRUMBIM

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