MÊS DO HORROR: Assovie que Virei (Histórias de Fantasmas) – M.R. James

“Assovie que Virei (Histórias de Fantasmas)” é uma coletânea composta por cinco contos do autor Montague Rhodes James, os contos foram selecionados e traduzidos por Chico Lopes que também traduziu o maravilhoso “O Grande Deus Pã”, ambas as obras foram lançadas pela Editora Penalux.

Montague Rhodes James foi um acadêmico e escritor Inglês, famoso por suas histórias de fantasmas que são consideraras frequentemente entre as melhores do subgênero do horror. O autor redefiniu o conceito do subgênero de histórias de fantasmas ao eliminar clichês e torná-las mais realistas e por consequência, mais assustadoras, além de ter renovado outro gênero, o gótico. Assim como Arthur Machen, Montague também foi citado no ensaio “O Horror Sobrenatural na Literatura”, escrito por ninguém menos que H.P. Lovecraft.

Está sendo engraçado descobrir todas essas coisas ao mesmo tempo e perceber a forma com que elas estão conectadas, desde o início do Mês do Horror, esbarrei em muitas referências à obras que já estavam na minha lista de leituras do especial e também fui conhecendo coisas novas e expandindo o meu conhecimento no gênero, depois de tantas referências a esse ensaio de H.P. Lovecraft por exemplo, serei obrigado a investigar a obra do autor e encontrar mais indicações, uma vez que até aqui, todas foram absolutamente fantásticas.

Como o livro reúne apenas cinco contos, vou conseguir falar sobre todos eles aqui sem me alongar demais. O primeiro conto, “Corações Perdidos”, conta a história do jovem órfão Stephen Elliot que após a morte dos pais, vai morar com seu tio Mr. Abney, em Aswarby Hall, uma construção gótica extremamente charmosa e assustadora.

Mr. Abney é um professor de Grego na Universidade de Cambridge e estudioso de crenças religiosas, principalmente aquelas atreladas ao paganismo, assunto que lhe agrada ao ponto de ter várias obras pagãs em sua biblioteca particular. Aos poucos, vamos descobrindo com Stephen, que o seu tio não é lá uma pessoa muito boa e sua reputação fora dos muros de Aswarby Hall acompanham a sua má fama.

A narrativa avança sem pressa e vai dando ao leitor pistas do que está por vir, tornando a leitura extremamente imersiva e o leitor tenso. Quando descobrimos os segredos de Mr. Abney é impossível não se chocar com a revelação diante de tamanha crueldade e egoísmo, é de torcer o nariz quando descobrimos o que ele já fez e o que planeja fazer para alcançar seus objetivos. Talvez tivesse sido melhor para o jovem Stephen Elliot ter ficado em um orfanato qualquer.

O segundo conto, “O Freixo”, consegue ser ainda mais assustador e tenso que o primeiro, aqui o clima é construído com a dose certa de parcimônia para que o leitor se sinta imerso na história.

A história se inicia durante o período da Santa Inquisição, nesse período havia um tribunal onde eram julgados casos de heresia e “bruxaria” e as penas iam de tortura até a morte na fogueira. Quando o proprietário de Castringham Hall denuncia a Sra. Mothersole ao tribunal da inquisição, após vê-la cortando galhos do Freixo em seu quintal durante várias noites vestindo apenas uma camisola branca e curiosamente, todas as vezes que ele corria para tentar pegá-la, ela desaparecia, ela é condenada à morte por bruxaria e morre despejando em seu denunciador um olhar terrível de fúria, pouco tempo depois, o proprietário de Castringham Hall morre em circunstâncias muito estranhas e absolutamente horríveis.

Os anos vão se passando e os herdeiros de Castrigham Hall também vão passando, nenhum fica por muito tempo ali, pois sempre encontram problemas, até que um dia, um novo herdeiro chega. Munido de sua arrogância e falta de crença, o novo herdeiro ignora conselhos de que deveria cortar, queimar ou dar qualquer jeito de acabar com o Freixo em seu quintal, pois a árvore é estranha e vários dos acontecimentos estranhos que assolaram a família durante anos estão conectados ao Freixo de alguma forma. Ele ignora até que coisas estranhas começam a ocorrer e toda a sua descrença e arrogância é colocada à prova.

Eu simplesmente adorei esse segundo conto e tive uma grata surpresa durante a leitura, pois aqui é mencionado o Reverendo Cotton Mather, uma figura histórica que eu já conhecia e odiava por conta da série “Salem”.

O terceiro conto da coletânea, “O Conde Magnus”, foi o que eu menos gostei, porém isso não significa de forma alguma que seja ruim. Na história, um estudioso inglês se vê fascinado por alguns documentos acerca da família De La Gardie, principalmente os registros que mencionam o Conde Magnus.

Esse fascínio e curiosidade levam o estudioso ao sarcófago do Conde, que é localizado no interior de uma igreja muito sinistra, uma construção caindo aos pedaços que ninguém ousa tocar e até mesmo evitam mencionar e não são somente as pessoas que vivem naquela aldeia da Suécia que evitam a construção, até mesmo os pássaros evitam pousar no telhado da tal igreja. Mesmo que intensamente dissuadido a continuar suas pesquisas, o estudioso teimoso resolve adentrar na construção e encontra ali coisas das quais se arrepende.

“Bem naquele instante”, ele disse, “eu senti um golpe sobre meu pé. Por reflexo, puxei-o para trás, e algo pesado caiu sonoramente sobre o pavimento. Era o terceiro, o último dos três cadeados que haviam prendido o sarcófago. Eu me abaixei para recolhê-lo, e – o Céu é testemunha de que estou escrevendo apenas a pura verdade – antes que houvesse me erguido, ouvi um som de dobradiças de metal rangendo, e claramente vi a tampa se levantando.”…

O quarto conto da coletânea, “O Poço dos Gemidos”, é bem curioso, pois evidencia certa característica do autor que estava um tanto quando suave até aqui, a lição de moral.

Na história, temos as características contrastantes de dois jovens escoteiros, porém, o conto evidencia o comportamento do mais travesso. Durante uma expedição, o grupo de escoteiros é convidado à acampar em um certo terreno, porém são altamente dissuadidos de passar de um certo limite, onde há o poço que dá nome ao conto.

Fotografia por Lucas Moreira – Todos os Direitos Reservados

É claro que o escoteiro travesso ignora a advertência e decide explorar o tal poço. Quando os outros escoteiros e o chefe do acampamento descobre que o garoto partiu em direção ao local proibido, decidem se dirigir até o local. Chegando no Poço dos Gemidos eles descobrem o destino do garoto e o motivo pelo qual as pessoas deveriam ouvir conselhos e não se aproximarem daquele lugar. Apesar de ter certa conotação instrutiva, o conto é maravilhoso! Eu duvido que você não vá sentir um arrepio na nuca quando descobrir o que há no Poço dos Gemidos, mas hey, se eu fosse você pensaria duas vezes antes de me aventurar por lá!

O conto que encerra o livro, “Assovie que Virei”, foi sem dúvida alguma o conto que mais me assustou, me assustou mesmo, eu juro e me assustou tanto que eu decidi mandar áudio lendo algumas partes para alguns amigos para compartilhar um pouco o meu medo e ver se ele se amainava, porém, só consegui deixar meus amigos assustados também.

Na história, um arqueólogo encontra um apito e decide levá-lo consigo até a hospedaria na qual está acomodado para investigar o objeto, porém, no caminho para a hospedaria, o homem sente uma constante presença, como se alguém o estivesse seguindo desde o instante no qual encontrou o apito. Não satisfeito com a tal presença estranha, que logo atribuí à alguma inquietação absurda, o arqueólogo resolve assoprar o apito, gente, ele ASSOPROU O APITO!

A legenda longa parece realmente bem simples. Deve significar “Quem é esse que vem aí?”. Bem, a melhor maneira de descobrir é evidentemente assoviar para que ele venha”. Ele assoprou…

Preciso dizer que o personagem fez merdinha? Preciso? Bom, a partir desse momento coisas estranhas começam a acontecer, seu quarto mobiliado com duas camas amanhece com as duas camas desarrumadas, sendo que ali só havia ele dormindo. Uma criança parente dos donos da hospedaria entra no quarto dele e avista uma estranha figura o encarando da rua pela janela. E as coisas só pioram, pioram e pioram, pioram tanto que tive que tomar um copo d’água para conseguir terminar o conto e QUE FINAL, QUE CONTO, QUE INSÔNIA QUE EU TIVE! Ah, um detalhe que acho pertinente dizer, o autor era estudioso de arqueologia 🙂

“Assovie que Virei (Histórias de Fantasmas)” é uma seleção excelente de contos de fantasmas, eu duvido que você passe ileso(a) pela leitura desses cinco contos, pois é absolutamente incrível a forma com que o autor consegue nos fazer ter empatia com os personagens e entrar de verdade na história. Além disso, contos são muito mais difíceis de serem escritos do que romances, você precisa sintetizar uma história, construir muito bem os personagens para que o leitor seja atingido por toda a carga que o autor idealizou e M.R. James faz isso magistralmente nesses cinco contos. Só me resta agradecer à Editora Penalux por ter publicado por aqui esse clássico e ter trazido o autor ao conhecimento dos leitores brasileiros!

Gostou do livro? Adquira o seu exemplar na loja oficial da Editora Penalux.

Quantos cafés assombrados “Assovie que Virei” merece?

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