MÊS DO HORROR: BLACK HOLE – CHARLES BURNS

“Black Hole” é uma Graphic Novel que foi concebida inicialmente em uma série com doze edições, publicadas entre 1995 e 2005 pela Kitchen Sink Press e pela Fantagraphics e relançada em  volume único pela Pantheon, por Charles Burns que escreveu, ilustrou e coordenou todo o projeto gráfico. Por aqui, foi a editora DarkSide Books que lançou o material ano passado em uma edição caprichada em capa dura.

Para que você tenha uma noção do nível de “Black Hole”, Charles Burns deve ter comprado um quarto só para guardar os prêmios que recebeu por este trabalho, dá só uma olhada: 6 Harvey Awards de Melhor Artista (1998, 1999, 2001, 2002, 2004 e 2006), 1 Harvey Award de Melhor Graphic Novel (2006), um Eisner de Melhor Graphic Novel (2006), um Ignatz Awards de Melhor Antologia (2006) e o Prêmio para Obras Fundamentais no Festival Anhoulême (2007).

É bem difícil enquadrar “Black Hole” em um gênero, a Graphic Novel tida por muitos como apenas uma obra de terror, vai muito além ao incorporar também boas doses de drama humano, mistério e até mesmo romance.

A trama acontece em Seatle, ao final da década de 70 que marcou o fim da era hippie. Todo o espírito de liberdade, os hábitos nocivos e toda a transgressão intrínseca ao movimento foi incorporada à era que o sucedeu. Porém, a alegria, as cores e o espírito de paz e amor não vieram junto com os outros hábitos, tornando a era pós-hippie uma época onde as pessoas se encontravam perdidas; sem todas as cores e conceitos, as drogas e a transgressão marcaram como uma forma de alimento para uma era vazia e triste, o que combina muito com o traço incrível de Burns, que parece sempre partir do preto e inserir o branco para dar luz, movimento e profundidade.

Nesse ambiente de perdição, de atmosfera lúgubre e chuvosa, acompanhamos as estórias de adolescentes, que como qualquer jovem, buscam seu lugar e sentem a necessidade de fazer parte de alguma coisa. Enquanto seguem em suas buscas individuais, uma misteriosa doença sexualmente transmissível começa a se espalhar, conferindo mutações terríveis nas pessoas infectadas.

As mutações adquiridas com a doença não são nada agradáveis e variam de pessoa para pessoa, assim, alguns começam a trocar de pele (mais uma metáfora do quadrinista para expor dessa vez a transição física em meio á transição comportamental e psicológica), enquanto outros desenvolvem protuberâncias estranhas, órgãos inumanos e até mesmo uma segunda boca falante no pescoço (uma clara metáfora para uma fase marcada pelo adeus da liberdade infantil de dizer aquilo que vem à cabeça, e o início de uma fase que é mais marcada pelo ato de internalizar).

Como se não bastasse ter de sobreviver em uma fase tão complicada quanto o limbo entre a adolescência e a fase adulta, os personagens são infectados com essa misteriosa doença que pode ser vista tanto como uma simbologia para o HIV, doença que se tornou epidemia na década de 80 e era vista como uma doença de homossexuais, quanto como metáfora para a adolescência e seu despertar sexual intrínseco e também para a transição de fases já citada, pois é somente quanto os personagens são infectados com essa doença que suas vidas passam a sofrer transformações em todas as esferas. Diante do preconceito, os infectados são obrigados a se refugiar em uma floresta, se mantendo à margem de uma sociedade que os oprime, ridiculariza e até mesmo fere, trazendo aqui mais uma vez a questão da inadequação e de buscar o seu lugar no mundo.

Dessa forma, “Black Hole” ganha traços de uma Graphic Novel mais existencialista e desafia o leitor constantemente com seus temas e ilustrações fortes e absolutamente críveis, gerando um desconforto proposital durante a leitura. O traço de Charles Burns é visceral e o fato dele ter conseguido manter uma estória e todo o seu conceito, traço e principalmente coesão, mesmo tendo publicado em doze edições que levaram dez anos para serem produzidas, é absolutamente incrível. É claro que há alguns problemas bem pequenos quanto à cronologia da estória, mas basta fazer uma leitura atenta para que esses problemas se dissolvam.

“Black Hole” é uma leitura obrigatória para todo fã de histórias em quadrinhos, a obra-prima de Charles Burns é imensamente criativa, rica em detalhe, metáforas  e subversão de estrutura da forma como se é comum fazer quadrinhos. Acompanhar as estórias dos personagens e suas transições para a vida adulta é uma experiência que chega a ser filosófica, a questão da doença e do preconceito das pessoas com os portadores dessas mutações é comparável com diversos problemas que tangem minorias atualmente, as pessoas insistem em demonizar, invalidar, rebaixar e ridicularizar aquilo que é diferente e infelizmente, ao invés de serem dissuadidas a cometer esses atos, estão tendo seus argumentos retrógrados validados por uma figura execrável. A auto aceitação, o preconceito, a busca por pertencimento, identidade,  e a busca pelo amor verdadeiro vão ser coisas pelas quais todos nós teremos que passar um dia e ao abordar todos esses temas de forma tão bem executada, “Black Hole” é mais que merecedor de todos os prêmios que conquistou até então, o realismo fantástico aterrorizante de Charles Burns merece ser lido.

Caso tenha gostado das minhas impressões e do traço do Burns, você pode adquirir “Black Hole” pelo link do blog na Amazon.

Quantos cafés “Black Hole” merece?

2 comentários sobre “MÊS DO HORROR: BLACK HOLE – CHARLES BURNS

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