CONTO: SEM SIGILO – RODRIGO LUCAS

“Sem Sigilo” é a segunda publicação independente do professor, autor e youtuber Rodrigo Lucas do canal “Rodrigo e Os Livros”. Lançado em maio, “Sem Sigilo” é uma ficção muito próxima da nossa realidade, com o surgimento de um aplicativo que expõe dados sensíveis de usuários de várias redes sociais, o caos toma conta do país.

O aplicativo “Sem Sigilo” surgiu do dia para a noite trazendo consigo o caos, ninguém sabe dizer quem criou esse aplicativo e até mesmo as autoridades encontram dificuldades para localizar os criadores que estão expondo dados sensíveis de pessoas mediante a pacotes específicos que variam de conteúdo conforme sua precificação.

No começo, o aplicativo é tratado como uma gracinha, algo banal, uma vez que muitos de nós nem precisamos que dados sejam vazados, pois nos expomos todos os dias voluntariamente, seja por postar uma foto de uma carteirinha de vacinação sem cobrir o endereço do posto de saúde próximo da sua residência, repostando tweets de modinha com informações como altura, peso, cor favorita, print do titulo eleitoral, dentre outras informações que as pessoas costumam vazar sem perceber que estão sendo descuidadas. Porém, as coisas começam a ficar mais sérias e preocupantes quando um cantor sertanejo tem sua sexualidade exposta pelo aplicativo e acaba cometendo suicídio, deixando um último recado antes de ceifar a própria vida diante da exposição de algo que ele não estava pronto para revelar: “eu não queria ser assim”.

Com o aumento de casos de exposições feitas pelo aplicativo, crateras sociais são expostas, começam a aumentar os casos de jovens sendo espancados e expulsos de suas próprias casas e pessoas não aguentando ter sua intimidade exposta e cometendo suicídio. É nesse cenário que conhecemos Helena e Vicente.

Helena é uma psicóloga que recentemente foi remanejada para prestar seus serviços em uma casa de acolhimento LGBTQIA+, ela é casada há bastante tempo com Luís, um advogado bem sucedido que trabalha em um escritório que tem a fama de acolher casos complicados como pro bono, termo utilizado para serviços advocatícios prestados de forma voluntária por que trata-se de um serviço prestado pelo bem público. Ironicamente Luís desaprova totalmente a nova posição da esposa, dando início a uma crise em seu longo casamento. Helena se mostra extremamente surpresa com o incômodo do marido e tenta, de forma paciente, mostrar-lhe que seus preconceitos precisam ser descontruídos para que a relação não desmorone, afinal é inviável que um ser humano se relacione com um jegue empacado em sua própria ignorância.

Vicente é um jovem de 28 anos, gordinho, com seus cabelos tingidos de azul e sua habilidade autodidata com a cozinha. O jovem trabalha com gastronomia em um restaurante mexicano e namora há três anos Fernando, um professor de história. Após tanto tempo de relacionamento e observando que Nando sempre dá uma desculpa esfarrapada para não passar a noite na casa do namorado, Vicente decide pressionar o parceiro para que tomem um novo passo no relacionamento e comecem a morar juntos.

Os caminhos dos dois personagens se cruzam quando o aumento de casos de exposição e suicídios fazem com que a casa de acolhimento onde Helena trabalha, com apoio da prefeitura, passam a procurar um restaurante onde possam fazer um jantar beneficente para angariar fundos que serão destinados ao apoio da comunidade em questões básicas e também questões psicológicas e jurídicas. O restaurante onde Vicente trabalha é o local perfeito para o evento e o dono cede sem o menor problema, Vicente fica responsável pelo cardápio do evento e Helena e a fabulosa Cris (personagem favorita sem dúvidas) cuidam da organização.

Em meio a organização do evento e o caos causado pelo aplicativo, Helena e Vicente também precisam encarar o caos em seus relacionamentos, enquanto Helena amacia o marido e introduz aos poucos a comunidade LGBTQIA+ para o seu cérebro e coração limitado, Vicente luta para manter seu relacionamento com o cada vez mais esquivo Nando, que apesar de ser bem mais velho que Vicente demonstra a maturidade de um gloss da Hello Kitty.

Em meio a todo esse caos e gritaria, preciso salientar que o aplicativo “Sem Sigilo” não é somente um aplicativo de fofoca e exposição paga, seu propósito maior é revelado no final da trama e se entrelaça de forma muito consistente com a nossa realidade atual.

“Sem Sigilo” é uma história para ler de uma só vez, os personagens são muito bem desenvolvidos e extremamente carismáticos, eu super queria ser amigo de Helena, Vicente e Cris, todo o drama e mistério causados pelo aplicativo são super intrigantes e me manteve preso até o final para saber quem eram os desenvolvedores daquela caixa de pandora virtual e eu super recomendo essa leitura para todos aqueles que creem que a fofoca edifica o homem kkkkkkk.

Rodrigo fez um ótimo trabalho mais uma vez, seu conto entretém ao mesmo tempo que nos faz pensar sobre questões importantes e sensíveis da nossa sociedade e também da comunidade LGBTQIA+ e todas as dificuldades, traumas e medos que essas pessoas enfrentam pelo simples desejo de serem aquilo que são de forma plena.

Quantos cafés “Sem Sigilo” merece?

4 comentários sobre “CONTO: SEM SIGILO – RODRIGO LUCAS

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