LIVRO: O OBSCENO SONO DOS CIPRESTES – ALEX SENS

Depois do final atordoante de “A silenciosa inclinação das águas”, segundo livro da tetralogia iniciada com “O frágil toque dos mutilados”, finalmente pude ler “O obsceno sono dos ciprestes”, terceiro livro da “tetralogia da Magnólia”, escritos pelo incrível Alex Sens e publicados pela editora Autêntica.

Só Deus, meus amigos próximos e o próprio Alex (desculpa pelas insistentes cobranças de: quando sai o livro novo Alex? Cadê a data Alex? O link da pré-venda sai hoje Alex?) sabem o tanto que eu esperei e gritei por essa sequência. O cliffhanger deixado nas últimas páginas do segundo volume da tetralogia é de matar qualquer curioso/fofoqueiro do coração. Eu digo fofoqueiro, pois acompanhar as histórias da família criada pelo Alex é um grande ato de apagar as luzes da sala, puxar uma frestinha da cortina e observar a discussão dos vizinhos que está acontecendo ali do lado de fora enquanto decide se faz uma pipoca para acompanhar ou deixa o telefone pronto para discar o número da emergência; o engraçado é que diferente desse tipo de fofoca, acompanhar a trajetória dessa família também abre cortinas para o lado de dentro, pelo menos por aqui várias acabaram se abrindo.

“…Às vezes o silêncio é como uma pele, cobrindo o que não se quer expor. Outras vezes é como um fungo, proliferando-se, com um odor estranho, até ser impossível ignorá-lo. Em outras, ainda, é apenas um vão através do qual caem todas as coisas não ditas, todas as palavras abafadas pelo medo.”

Antes de começar a falar sobre esse livro, preciso deixar avisado que é impossível falar sobre ele sem estragar a experiência de leitura do segundo livro com spoilers, então se você ainda não leu “A silenciosa inclinação das águas”, faça esse favor a si mesmo e só depois volte aqui.

Na foto há uma composição com o livro “O Obsceno sono dos ciprestes” ao lado de uma câmera analógica e fotografias pintadas de preto para representar a perda de fotografias e memórias.

Ufa, Magnólia não morreu como o cliffhanger do final do segundo livro pode ter dado a entender. Após ser encontrada por Herbert e deixar claro que ele não é o salvador de coisa nenhuma, a personagem luta com sua própria memória para tentar entender o que ocorreu nos dias nos quais ficou desaparecida longe da família em um país desconhecido.

Sua relação com o marido continua uma montanha-russa shuttle, a diferença é que agora Herbert assumiu uma postura diferente, devo dizer que gostei bastante desse “novo Herbert” e é bem divertido acompanhar o embate pontiagudo em cada diálogo desses dois, devo dizer que algumas suspeitas minhas sobre o Herbert do primeiro livro que escrevia um ensaio sobre “As Ondas” de Virgínia Wolf se concretizaram aqui, só não sei ainda o que pensar sobre o sentimento dele em relação à esposa, mas sinto desde o começo um certo parasitismo em relação à vida de Magnólia e do material que ele tira disso tudo.

Não creio que seja acertado dizer que a relação de Mag com Tomas esfriou, mas nesse terceiro volume eles não se conversam tanto. Não só Mag, como a família inteira, parece ter esquecido que o motivo inicial pelo qual todos estão ali era para cuidar de Tomas em um momento super delicado e triste de sua vida. Magnólia passa mais seu tempo trocando farpas e carinhos com o marido, discutindo com a sobrinha Muriel, que possui uma presença bem maior e importante do que teve até então, e resgatando algumas lembranças extremamente dolorosas que me fizeram derramar lágrimas e querer dar um super abraço na personagem.

A trajetória narrativa da Magnólia nesses dois últimos livros foi absurdamente bem construída e eu já estou doido para saber como esse ciclo vai se encerrar, de que forma ela vai lidar com as lembranças terríveis que foram destravadas, rompendo barreiras e inundando todo o seu ser com litros e litros de água suja.

Por falar em água suja, vamos conversar sobre Orlando continua sendo um dos personagens que mais me provoca sentimentos ruins, muito pelo fato de que consigo associar certas ações, ou na maioria das vezes “não ações”, dele com fatos que já ocorreram na minha vida pessoal, como eu disse no começo desse post, a escrita do Sens também abre algumas cortinas para o lado de dentro.

Orlando continua sendo uma pessoa que prefere guardar seus sentimentos para si e acaba exalando uma aura verde musgo de bunda-mole principalmente em sua relação com seus filhos, as coisas vão acontecendo e parecem transpassar o personagem, ele não reage, não explode, Orlando por muitas vezes é só uma sombra do que poderia ser, mas não é, pois prefere guardar tudo para si mesmo. Uma das cenas que mais me irritou e que evidenciam bem isso é a sua “reação” à discussão de Muriel e Magnólia na praia, não que a discussão que gerou o primeiro atrito das duas não seja revoltante também, mas nessa ele estava presente.

Também me irrita o preconceito velado, ou talvez a falta de tato de Orlando com o filho, às vezes eu imagino Orlando como um peixe morto levado pela maré dos acontecimentos. Porém, ao que me parece, o personagem promete finalmente sair dessa armadura daqui pra frente, pelo menos foi isso que me pareceu ser aquela cena do quadro, basicamente o único ato de liberação do personagem nesse volume.

Não posso deixar de escrever sobre Tomas com T, como diria Pabllo Vittar, triste pela morte inesperada e trágica de Alister, mas derretendo de tesão por Tadeu e, por consequência, desagradando Gunnar, ai tadinho do Gunnar kkkk. Além dessa questão que Tomas precisa entender internamente, ele está mesmo querendo o corpinho do tio do namorado falecido ou esse desejo todo é uma válvula de escape tanto para a tragédia quanto para o comportamento insuportável de todos os membros de sua família, ele precisa lidar também com a decisão que precisa tomar sobre o seu futuro. O personagem não é o grande foco desse terceiro volume, como foi no segundo, mas há momentos muito bons como seu diálogo com o pai mosca morta, e toda a cena na praia com a irmã e uma cena específica que eu simplesmente gritei quando aconteceu. Pelo final desse terceiro volume, Tomas vai render muito na conclusão da tetralogia, estou doido pra ler!

Eu não sei se eu já disse isso em algum lugar, mas vou dizer novamente, Alex Sens hoje é o meu autor nacional contemporâneo favorito, eu já entreguei nesses anos, nos quais tenho acompanhado sua escrita, todos os superlativos possíveis para descrever o quanto sua escrita é rica, seus personagens e sua narrativa são bem construídas, há algumas passagens e ciclos dos personagens que, eu até já cheguei a comentar com o autor que parecem mágica de tão bem feitos e bem, talvez seja isso mesmo.

“O obsceno sono dos ciprestes” é um livro mais curto e bem mais ágil do que os seus dois irmãos mais velhos e, mesmo assim, os acontecimento transcorrem de forma natural, sem atropelos e também sem excessos, o que nos mostra uma evolução na escrita do autor, que já declarou estar trabalhando numa reedição do primeiro livro. Alguns dos últimos acontecimentos de cada personagem acabaram me deixando muito curioso sobre o que vem pela frente no que deve ser o último livro da tetralogia (eu não reclamaria se viesse um último livro em dois volumes com 400 páginas cada), eu não vou citar nada sobre esses acontecimentos pois poderia estragar a experiência de leitura de alguém, mas posso dizer que o próximo livro provavelmente será o que nos fará fechar a cortina e discar de uma vez o número da emergência.

Gostou das minhas impressões sobre o livro? Você pode adquirir “O obsceno sono dos ciprestes” em formato físico ou digital pelo link do blog na Amazon (https://amzn.to/3Kjp9kL) e colaborar com o trabalho desse criador de conteúdo viciado em café.

Quantos cafés “O obsceno sono dos ciprestes” merece?

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